Para quem adora queijo, especialmente os mais intensos e gordurosos, uma nova pesquisa traz um alívio inesperado — e saboroso. Um estudo conduzido por cientistas suecos sugere que o consumo regular de queijos com alto teor de gordura pode estar associado a um risco menor de desenvolver demência ao longo da vida. A descoberta não transforma o queijo em remédio, mas reforça a ideia de que ele pode fazer parte de uma alimentação saudável para o cérebro.
A análise foi realizada por pesquisadores da Lund University, com base em dados de um amplo estudo populacional iniciado nos anos 1990. Os resultados foram publicados esta semana na revista científica Neurology, uma das principais publicações da área de neurologia.
Um acompanhamento raro, ao longo de décadas
O trabalho utilizou informações do Malmö Diet and Cancer Study, que acompanhou quase 28 mil adultos residentes na cidade sueca de Malmö por cerca de 25 anos. No início do estudo, os participantes registraram detalhadamente seus hábitos alimentares, incluindo o tipo e a quantidade de queijo consumida regularmente.
Os pesquisadores classificaram como “queijo gorduroso” aqueles com mais de 20% de gordura, como cheddar, gouda e queijo azul. Ao longo do acompanhamento, cerca de 3.200 participantes foram diagnosticados com algum tipo de demência, permitindo comparar padrões alimentares e riscos futuros.
O que os dados revelaram sobre queijo e demência
Os resultados chamaram atenção. Pessoas que consumiam, em média, 50 gramas ou mais de queijo gorduroso por dia — o equivalente a duas fatias médias — apresentaram um risco menor de desenvolver demência em comparação com aquelas que consumiam menos de 15 gramas diários.
Cerca de 10% dos consumidores frequentes de queijo desenvolveram demência ao longo do período analisado, contra 13% entre os que quase não consumiam esse tipo de alimento. Após ajustar fatores como idade, nível educacional e qualidade geral da dieta, os pesquisadores estimaram uma redução de 13% no risco total de demência e de 29% no risco de demência vascular, a segunda forma mais comum da doença.
O que pode explicar esse efeito
Segundo a nutricionista Emily Sonestedt, autora do estudo, o queijo contém uma combinação complexa de nutrientes, incluindo proteínas, cálcio, vitaminas e ácidos graxos que podem ter efeitos positivos sobre o metabolismo e a inflamação — dois fatores ligados à saúde cerebral.
Estudos observacionais anteriores, realizados no Japão e no Reino Unido, já haviam sugerido uma possível relação entre consumo de queijo e menor risco de demência. A diferença agora está na escala e na duração do acompanhamento. “Nosso estudo é mais robusto, com uma amostra grande, acompanhamento longo e diagnósticos de demência bem validados”, explicou Sonestedt.
Limites importantes da pesquisa
Apesar dos resultados promissores, os próprios autores adotam cautela. O estudo é observacional, o que significa que não prova uma relação direta de causa e efeito. Além disso, os hábitos alimentares foram medidos apenas no início do acompanhamento, e mudanças ao longo dos anos não puderam ser captadas.
Outro ponto é o contexto cultural. Os participantes eram todos suecos, com acesso a um sistema de saúde diferente do de países como os Estados Unidos ou o Brasil. Há também diferenças no modo de consumo: enquanto suecos costumam comer queijo cru, em fatias, em outros países ele é frequentemente consumido derretido ou ultraprocessado.
Queijo, sim — mas dentro de um conjunto saudável
A pesquisa também dialoga com debates atuais sobre dietas voltadas à saúde cerebral, como a dieta MIND, que recomenda moderação no consumo de queijos. Os novos dados sugerem que não é necessário excluir totalmente o alimento por medo de prejudicar o cérebro.
Ainda assim, os especialistas reforçam que nenhum alimento isolado faz milagres. Não fumar, manter atividade física e social, controlar pressão arterial, glicemia e peso corporal seguem sendo os pilares mais importantes para a saúde cognitiva ao longo do envelhecimento.
“Queijo pode, sim, fazer parte de uma dieta saudável”, resume Sonestedt. “Mas ele funciona melhor quando está inserido em um padrão alimentar equilibrado e associado a hábitos de vida saudáveis.”