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Ciência

Após 20 anos de espera, Egito inaugura o maior museu arqueológico do mundo

O Egito acaba de abrir as portas do monumental Grande Museu Egípcio (GEM), um projeto de mais de duas décadas e US$ 1 bilhão que reúne 100 mil artefatos da civilização faraônica — incluindo a icônica tumba de Tutancâmon. A construção enfrentou revoluções, pandemias e atrasos, mas se torna, enfim, um marco da arquitetura e da cultura mundial.
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Depois de anos de adiamentos, o Grande Museu Egípcio (GEM) foi oficialmente inaugurado neste sábado (1º) com pompa digna dos faraós. Localizado a poucos metros das Pirâmides de Gizé, o complexo é agora o maior museu arqueológico do planeta, abrigando cerca de 100 mil peças, entre elas os tesouros do jovem rei Tutancâmon. O governo egípcio chegou a declarar feriado nacional para celebrar a abertura.

Um projeto que desafiou o tempo

Após 20 anos de espera, Egito inaugura o maior museu arqueológico do mundo
© Pexels

A história do GEM é quase tão épica quanto as relíquias que ele guarda. A ideia nasceu em 1992, mas o projeto só ganhou forma em 2002, quando o governo lançou um concurso internacional de design. O resultado surpreendeu o mundo: o vencedor foi o pequeno escritório Heneghan Peng Architects, de Dublin, então com apenas quatro funcionários.

A arquiteta Róisín Heneghan, hoje com 62 anos, lembra que achou que o telefonema anunciando a vitória era uma piada. “Foi surreal”, contou em entrevista à CNN. Mas o desafio estava apenas começando. Desde então, o museu sobreviveu a uma revolução política, a um golpe militar, à crise econômica e à pandemia de Covid-19.

O orçamento inicial, de centenas de milhões de dólares, ultrapassou US$ 1 bilhão, e as obras levaram mais de duas décadas. O resultado é um edifício monumental, mas respeitoso com sua vizinha milenar — a Grande Pirâmide de Quéops.

A arquitetura que dialoga com a eternidade

O conceito do projeto é um tributo à longevidade da civilização egípcia. Construído em calcário local, vidro e concreto, o museu se espalha horizontalmente no deserto, sem competir visualmente com as pirâmides. A inclinação do teto foi calculada para apontar diretamente ao topo da Grande Pirâmide, criando uma conexão simbólica entre passado e presente.

O espaço interno impressiona: são mais de 24 mil metros quadrados de galerias permanentes, organizadas por períodos históricos — do Egito pré-dinástico (cerca de 3000 a.C.) à era Copta. Entre papiros, sarcófagos, cerâmicas e múmias, está o destaque absoluto: uma galeria dedicada a Tutancâmon, com 5 mil artefatos encontrados em seu túmulo, expostos pela primeira vez juntos.

Logo na entrada, os visitantes são recebidos por um átrio banhado por luz natural — uma inovação que quebra a tradição dos museus fechados e escuros. No centro do saguão, uma estátua colossal de Ramsés II, com 11 metros de altura, saúda os recém-chegados.

O equilíbrio entre grandeza e respeito

Projetar um museu ao lado de uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo é uma tarefa quase impossível. Heneghan e o parceiro Shih-Fu Peng optaram por uma arquitetura de discrição calculada. “Queríamos criar uma nova borda para o platô do deserto, sem ofuscar as pirâmides”, explica a arquiteta.

Do alto, o museu parece se abrir como uma lente telescópica, com linhas alinhadas matematicamente à paisagem. No topo da escadaria principal, de seis andares, o visitante é presenteado com uma vista direta e desobstruída das pirâmides de Gizé — um final de percurso digno de reverência.

A escolha de iluminação natural também foi estratégica: enquanto artefatos orgânicos, como tecidos e pinturas, exigem proteção da luz, as esculturas de pedra se beneficiam da claridade do deserto. “A luz natural cria uma experiência mais autêntica”, disse Heneghan.

Uma jornada de paciência e persistência

Durante a construção, o escritório irlandês acompanhou o progresso à distância, muitas vezes por fotos ou imagens do Google Earth, já que as equipes locais de engenharia assumiram a supervisão. Mesmo com modificações ao longo dos anos, Heneghan acredita que o projeto “resistiu bem ao teste do tempo”.

“Grandes museus são como civilizações: precisam de tempo para se construir”, afirmou. E no caso do GEM, o tempo parece ter sido um aliado.

Com 17 laboratórios de conservação, o museu também se destaca como um centro de pesquisa e restauração, reforçando o papel do Egito como guardião do patrimônio arqueológico global.

Um novo capítulo para o turismo egípcio

A inauguração do GEM marca uma aposta ambiciosa do governo em revitalizar o turismo, setor responsável por 12% do PIB do país. A expectativa é que milhões de visitantes passem pelo complexo anualmente, movimentando a economia local e projetando novamente o Egito como destino cultural número um do mundo árabe.

Para os arquitetos, o museu também é um lembrete de que a arquitetura pode dialogar com o passado sem precisar competir com ele. “O truque foi dar ao edifício a proeminência que ele exige — mas apenas na horizontal”, disse Heneghan.

O Grande Museu Egípcio é, em essência, um elo entre eras: onde o antigo encontra o moderno, e o tempo, finalmente, parece ter encontrado o seu lugar.

[Fonte: CNN Brasil]

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