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Após ameaçar ação militar, Trump afirma que Irã quer negociar em meio a protestos sangrentos

Presidente dos Estados Unidos diz que autoridades iranianas buscaram diálogo, mas mantém tom de ameaça ao falar em possível intervenção antes de qualquer reunião. Crise no Irã já dura duas semanas, deixou ao menos 192 mortos e se tornou um dos maiores desafios ao regime desde 1979.
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou neste domingo que o Irã estaria disposto a negociar, poucos dias depois de ameaçar uma possível ação militar em resposta à repressão violenta contra protestos que se espalham pelo país. A declaração ocorre em meio a uma grave crise interna na República Islâmica, marcada por manifestações antigovernamentais, bloqueio da internet e um número crescente de mortos.

Segundo Trump, líderes iranianos entraram em contato com Washington para discutir uma saída diplomática. Ainda assim, o presidente norte-americano deixou claro que não descarta uma intervenção antes mesmo de qualquer encontro oficial, elevando ainda mais a tensão no Oriente Médio.

Protestos entram na terceira semana

As manifestações no Irã começaram há cerca de duas semanas, inicialmente motivadas pelo aumento do custo de vida e pela deterioração da economia. Com o passar dos dias, porém, os protestos ganharam um caráter político mais amplo e passaram a questionar diretamente o regime teocrático instaurado após a Revolução Islâmica de 1979.

De acordo com a ONG Iran Human Rights, sediada na Noruega, ao menos 192 manifestantes morreram até agora. A organização alerta que o número real pode ser significativamente maior, já que o corte quase total da internet dificulta a verificação independente das informações. O balanço anterior apontava 51 mortes, o que indica uma rápida escalada da violência.

Trump fala em negociação, mas mantém ameaça

Falando a jornalistas a bordo do Air Force One, Trump afirmou que autoridades iranianas “ligaram” no sábado e que uma reunião estaria em fase de organização. “Eles querem negociar”, disse. Logo em seguida, no entanto, acrescentou uma advertência: “Podemos ter que agir antes de uma reunião”.

A declaração foi interpretada como uma ameaça velada de ação militar, reforçada por falas anteriores do presidente. No domingo, Trump disse que os Estados Unidos avaliam “opções muito fortes” para responder às denúncias de repressão violenta contra civis no Irã.

Resposta dura de Teerã

O governo iraniano reagiu com firmeza às declarações de Washington. O presidente do Parlamento, Mohamad Bagher Ghalibaf, advertiu que, em caso de ataque norte-americano, alvos militares e navais dos Estados Unidos seriam considerados “objetivos legítimos”.

A fala também foi interpretada como um recado indireto a Israel, país que o Irã não reconhece e considera território palestino ocupado. Em Jerusalém, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou esperar que “a nação persa seja em breve libertada do jugo da tirania”.

Governo decreta luto e convoca marcha

Em meio à pressão internacional, o governo iraniano decretou três dias de luto nacional pelos “mártires” mortos durante os protestos, incluindo integrantes das forças de segurança. O presidente do Irã, Masud Pezeshkian, convocou a população para uma “marcha nacional de resistência”, com o objetivo de denunciar a violência atribuída, segundo o governo, a “terroristas urbanos”.

Em entrevista à televisão estatal, Pezeshkian afirmou que a população não deve permitir que “alborotadores” desestabilizem o país, reforçando o discurso oficial de criminalização das manifestações.

Internet cortada e hospitais sobrecarregados

Apesar da repressão, os protestos continuam. Vídeos que circulam nas redes sociais — apesar das restrições — mostram multidões nas ruas de cidades como Teerã e Mashhad. O bloqueio de internet já ultrapassa 60 horas, segundo a organização NetBlocks, que monitora a governança digital global.

O Centro para os Direitos Humanos no Irã (CHRI), com sede nos Estados Unidos, afirma ter recebido relatos confiáveis de que centenas de manifestantes morreram durante o apagão digital. A entidade também denuncia hospitais “sobrecarregados”, falta de sangue para transfusões e feridos com disparos nos olhos.

Prisões e crise econômica

O chefe da polícia nacional, Ahmad Reza Radan, anunciou a prisão de figuras “significativas” ligadas às manifestações, sem divulgar números ou identidades. Já o responsável pela segurança do país, Ali Larijani, reconheceu que os protestos econômicos são “compreensíveis”, mas classificou os distúrbios como ações semelhantes às de grupos terroristas.

Enquanto isso, Teerã enfrenta uma paralisação quase total. O preço da carne quase dobrou desde o início das manifestações, lojas fecharam e a atividade econômica despencou. Do exílio nos Estados Unidos, Reza Pahlavi, filho do último xá deposto em 1979, voltou a convocar forças armadas e funcionários públicos a se alinharem ao povo e afirmou estar disposto a retornar ao país para liderar uma transição democrática.

 

[ Fonte: Perfil ]

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