Sanae Takaichi acaba de romper uma das barreiras mais resistentes da política japonesa: tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Japão. Sua eleição, celebrada na Câmara Baixa do Parlamento, ocorre em um momento de instabilidade interna, queda de popularidade do Partido Liberal Democrata (PLD) e pressão internacional crescente. O sucesso de seu governo dependerá da capacidade de transformar promessas em ações rápidas e concretas.
Uma coalizão inédita e cheia de riscos
Quem é Sanae Takaichi, primeira mulher a governar o Japão
➡️Primeira-ministra consolidou-se como linha-dura focada em defesa e segurança econômica
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— Folha de S.Paulo (@folha) October 22, 2025
Takaichi recebeu 237 dos 465 votos na Câmara Baixa, garantindo o cargo com apoio de uma coalizão entre o PLD e o direitista Partido da Inovação do Japão (JIP), uma legenda regional com base em Osaka que busca ganhar força nacional.
A nova líder agiu com rapidez: anunciou a formação de seu gabinete e delineou um plano que prioriza reformas econômicas, aumento de salários e fortalecimento da segurança nacional.
O desafio é monumental. “A principal prioridade da nova primeira-ministra será curar as divisões internas do partido e reconstruir a confiança do público no PLD”, explica Jeff Kingston, diretor de Estudos Asiáticos da Universidade Temple, em Tóquio. Segundo ele, a coalizão entre PLD e JIP ainda parece frágil, baseada em promessas vagas e uma agenda sem prazos claros.
Enquanto o PLD tenta preservar sua hegemonia, o JIP enxerga a aliança como uma chance de legitimar-se politicamente e aumentar sua base eleitoral. Mas, se o governo falhar em responder à crise econômica e à insatisfação popular, ambos os partidos podem sair enfraquecidos nas próximas eleições.
A sombra de Abe e o otimismo dos mercados
Discípula declarada do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, assassinado em 2022, Takaichi deve retomar parte de sua política de estímulo fiscal e expansão monetária, conhecida como “Abenomics”.
O mercado reagiu de forma positiva: o índice Nikkei ultrapassou os 49 mil pontos, atingindo um recorde histórico e refletindo a esperança de estabilidade política e crescimento.
Para Naomi Fink, estrategista-chefe da Amova Asset Management, o entusiasmo é compreensível: “Takaichi é vista como uma defensora do crescimento interno e do investimento público — algo que o Japão precisa urgentemente para escapar do estancamento”.
Desafios domésticos: salários baixos e custo de vida alto
Apesar do otimismo inicial, os problemas estruturais persistem. O crescimento salarial segue estagnado, e o número de trabalhadores temporários ou subempregados continua aumentando. “O eleitorado demonstrou seu descontentamento nas últimas eleições, e isso custou caro ao PLD”, observa Tadashi Anno, professor de política na Universidade Sophia de Tóquio.
A população enfrenta altos preços de bens básicos e uma moeda desvalorizada, o que corrói o poder de compra. O novo governo prometeu medidas para conter a inflação, mas ainda não há clareza sobre quando e como as reformas serão implementadas.
Relação com os Estados Unidos: um teste diplomático imediato
Takaichi enfrentará cedo um de seus maiores testes: a visita oficial do presidente Donald Trump, que chegará a Tóquio nos próximos dias. O Japão já anunciou um pacote de investimentos de US$ 550 bilhões, mas teme novas exigências.
“Trump é imprevisível”, alerta Anno. Em 2022, o Japão se comprometeu a destinar 2% do PIB à defesa, um aumento significativo, mas Washington pode pressionar por mais. Takaichi precisará equilibrar as demandas norte-americanas com as limitações fiscais do país — e, acima de tudo, evitar tensões que ameacem a aliança militar com os EUA.
Um governo com prazo de validade incerto
Legalmente, Takaichi não precisa convocar novas eleições até 2028, mas governa sem maioria parlamentar. Isso significa que qualquer união da oposição pode paralisar projetos centrais, como o orçamento previsto para fevereiro.
Segundo Kingston, o JIP busca flexibilidade, mantendo-se fora do gabinete para negociar livremente. Essa estratégia, porém, torna a coalizão instável. “Não acredito que dure muito”, avalia o analista. “Sem o apoio de um aliado forte como o Komeito, o PLD pode perder até 20% dos assentos nas próximas eleições.”
Um futuro ainda incerto
O Japão vive um retorno aos ciclos curtos de governo, com primeiros-ministros que mal completam um ano no cargo. Para Kingston, a única certeza é a inconstância política.
Mesmo assim, a ascensão de Takaichi marca um momento histórico — não apenas por ser a primeira mulher no cargo, mas por representar uma tentativa de renovação em um sistema que há décadas oscila entre estagnação e promessa de mudança.
[ Fonte: DW ]