A acusação contra a Oppo e o ex-engenheiro
Segundo a ação judicial, apresentada na última quinta-feira (21) no Tribunal do Distrito Norte da Califórnia, a Apple acusa o ex-arquiteto de sistemas de sensores Dr. Cheng Shi de roubar segredos industriais antes de se juntar à Oppo e à subsidiária americana Innopeak.
Shi trabalhou na Apple entre janeiro de 2020 e junho de 2025, período em que, de acordo com a empresa, teve “acesso privilegiado ao desenvolvimento de tecnologias de sensores de saúde de ponta”, incluindo documentos confidenciais sobre especificações do sensor de ECG, usado para monitorar a atividade cardíaca no Apple Watch.
Downloads suspeitos e buscas comprometedores
A Apple afirma que, três dias antes de pedir demissão, Shi copiou 63 documentos sigilosos para um pen drive. Esses arquivos incluíam detalhes de produtos ainda não lançados, além de especificações técnicas de sensores de temperatura e sistemas de hardware e software do Apple Watch.
O comportamento do engenheiro levantou ainda mais suspeitas: registros de navegação mostram que ele pesquisou termos como “como apagar tudo do MacBook” e “alguém consegue ver se abri um arquivo em um drive compartilhado?” antes de fazer os downloads.
Disputa estratégica: chips e inteligência artificial
Além dos sensores, a Apple acusa Shi de roubar informações confidenciais sobre o desenvolvimento dos chips personalizados da empresa. A Apple fabrica seus próprios processadores para Mac, iPhone e iPad e, recentemente, vem investindo pesado em chips de IA, peça-chave na estratégia de Tim Cook para manter a empresa competitiva.
A Oppo, por sua vez, tem apostado fortemente em smartphones de alta tecnologia. A companhia já foi alvo de críticas em 2020, quando lançou um relógio inteligente acusado de ser um clone do Apple Watch. Apesar de ainda não competir diretamente com a Apple no mercado premium, a Oppo tem ganhado espaço na Ásia, especialmente na China, onde a disputa por participação de mercado é cada vez mais acirrada.
Mercado chinês: a grande batalha
Nos últimos anos, Oppo, Huawei e Xiaomi vêm pressionando a Apple no maior mercado de smartphones do mundo. Em 2024, a Apple chegou a sair do ranking das cinco fabricantes mais vendidas na China. Porém, de acordo com dados preliminares citados pela Reuters, as vendas do iPhone voltaram a liderar em maio de 2025, ajudando a impulsionar os resultados globais da empresa.
Oppo na mira da Justiça americana
Embora a Oppo não atue oficialmente no mercado dos Estados Unidos, a empresa mantém um centro de pesquisa no Vale do Silício, operado tanto sob seu nome quanto pelo da Innopeak — justamente onde Dr. Shi passou a liderar uma equipe de desenvolvimento de sensores.
A Apple afirma que mensagens no celular corporativo de Shi mostram conversas com executivos da Oppo meses antes de sua saída, além de agendamento de 33 reuniões individuais em maio de 2025 — muito acima da média mensal de sete encontros no ano anterior. Segundo a acusação, Shi usou essas reuniões para obter informações de projetos dos quais não fazia parte.
O que a Apple quer com o processo
No processo, a Apple pede que a Justiça proíba a Oppo de usar qualquer informação obtida ilegalmente e solicita indenizações cujo valor ainda será definido durante o julgamento. Até o momento, a Oppo não se pronunciou sobre o caso.
A disputa entre Apple e Oppo revela uma batalha silenciosa por segredos industriais que vai muito além do Apple Watch: envolve chips, sensores, inteligência artificial e o domínio sobre o mercado chinês. Se confirmadas as acusações, o impacto pode ser gigantesco para as duas empresas — e para o futuro da tecnologia vestível.