Nos últimos anos, a Argentina passou de um país atrativo em termos de custo para turistas internacionais a um dos mais caros da América Latina. Essa transformação está diretamente ligada às políticas econômicas do governo de Javier Milei, incluindo a valorização do peso e medidas para reduzir a inflação. No entanto, essa mudança também trouxe desafios significativos para a economia local e para a competitividade do país.
O “superpeso” argentino
Desde que Javier Milei assumiu a presidência, o peso argentino passou por uma valorização significativa. Isso foi resultado de uma estratégia de combate à inflação, que incluiu a “ancoragem” do câmbio oficial, a redução dos gastos públicos e a suspensão da emissão de dinheiro para financiar o Tesouro.
Embora essas medidas tenham reduzido a inflação de 211% em 2023 para 118% em 2024, elas também criaram um fenômeno de “inflação em dólares”. Produtos que antes eram acessíveis em moeda estrangeira agora custam até 70% mais para os consumidores internacionais.
No entanto, o fortalecimento do peso não foi acompanhado por um aumento significativo no poder aquisitivo dos argentinos. Apesar de os salários terem subido em dólares, em termos reais, os rendimentos não acompanharam o aumento dos preços no mercado interno. Isso resultou em uma sensação de estagnação para muitos trabalhadores, que enfrentam dificuldades para manter seu padrão de vida.
Turismo em queda e impacto no consumo
A valorização do peso teve efeitos diretos no turismo e no comportamento do consumidor. Dados mostram uma redução de 19,2% no número de turistas estrangeiros no final de 2024 em comparação com o ano anterior. Paralelamente, muitos argentinos aproveitam o “dólar achatado” para viajar ao exterior, diminuindo o consumo interno.
Em bairros turísticos de Buenos Aires, como Palermo, os preços de produtos básicos já superam os de cidades como Miami. Um exemplo é o café, que custa US$ 3,20 na capital argentina, enquanto nos Estados Unidos é encontrado por US$ 2,20.
Efeitos sobre a produção e a competitividade
A valorização do peso também tornou a produção local mais cara, prejudicando a competitividade da indústria e do setor agrícola argentino. Ao mesmo tempo, a abertura às importações, promovida pelo governo para conter os preços internos, aumentou a dependência de produtos estrangeiros, colocando mais pressão sobre os fabricantes locais.
Para especialistas, essa combinação pode levar à redução da produção nacional e à perda de empregos, uma situação semelhante ao “industricídio” ocorrido na década de 1990, quando políticas cambiais semelhantes afetaram gravemente a economia do país.
O futuro da política cambial
Milei defende que a economia argentina não deve depender de uma desvalorização cambial para ser competitiva. Em vez disso, aposta na desregulamentação, na redução de impostos e na melhoria do acesso ao crédito como formas de fortalecer a economia.
O governo já anunciou que reduzirá a desvalorização mensal do peso oficial de 2% para 1% a partir de fevereiro de 2025, reforçando a valorização da moeda. No entanto, muitos economistas alertam que a decisão de suspender o controle de capitais e deixar o peso flutuar livremente será o verdadeiro teste para a sustentabilidade dessa estratégia.
Benefícios e desafios do “peso forte”
Embora a valorização do peso tenha trazido ganhos como salários mais altos em dólares, a falta de ajuste proporcional no poder aquisitivo dos argentinos limita os benefícios reais dessa política. Além disso, a queda do turismo, o aumento dos custos de produção e a perda de competitividade criam novos desafios.
A capacidade do governo de equilibrar essas questões será decisiva para determinar se o “superpeso” será um marco de recuperação econômica ou um obstáculo ao crescimento sustentável do país.
Fonte: BBC News Brasil