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Ciência

Arqueólogos tropeçam em uma pista que muda a história da tinturaria

Um estudo arqueológico nos Alpes encontrou milhares de sementes carbonizadas de uma planta usada para produzir um pigmento amarelo intenso. Combinada aos minerais ricos em cobre da mina, ela pode ter permitido que os trabalhadores da Idade do Bronze dominassem um dos primeiros processos de tingimento resistente já registrados.
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A vida nos antigos assentamentos mineradores costuma ser imaginada como cinzenta e funcional, marcada por rochas, fumaça e ferramentas rudimentares. Porém, novas evidências indicam que esses locais eram mais sofisticados — e coloridos — do que se pensava. Um achado arqueobotânico em uma mina alpina sugere que os trabalhadores de três mil anos atrás não apenas dominavam a metalurgia, mas também conheciam técnicas avançadas de produção de pigmentos. O resultado pode ser um dos primeiros corantes estáveis da história.

Uma mina de cobre que escondia mais do que metal

O sítio arqueológico de Prigglitz-Gasteil, na Baixa Áustria, funcionou entre 1050 e 780 a.C. com minas a céu aberto, oficinas, áreas de fundição e terraços construídos sobre depósitos de escória.
As escavações revelaram um pequeno ecossistema autossuficiente: ferramentas de bronze e osso para trabalhar couro, vestígios de alimentos e práticas de criação de animais.

Nesse cenário, arqueobotânicos encontraram algo inesperado: milhares de sementes carbonizadas concentradas em camadas específicas. Análises microscópicas confirmaram que eram de Reseda luteola, ou gualda — planta famosa por produzir um pigmento amarelo brilhante usado séculos depois na tinturaria europeia. A datação por radiocarbono confirmou a idade: eram contemporâneas à ocupação do sítio.

A peça-chave: planta tintórea e minerais certos no mesmo lugar

A gualda fornece luteolina, molécula responsável pelo tom amarelo. Porém, para fixar o corante em fibras naturais, é necessário um mordente mineral — e os minérios de cobre da região forneciam exatamente isso.
A calcopirita e outros minerais da mina poderiam formar sulfatos de cobre e ferro, compostos clássicos usados na tinturaria histórica.

Os pesquisadores observaram até poças naturais ricas em sais metálicos nas escombreiras atuais. É possível que antigos mineradores tenham percebido mudanças de cor acidentais em fibras expostas a essas soluções e começado a experimentar.

Economia Circular 3
© Gerson Repreza – Unsplash

O que eles tingiam? As ferramentas dão pistas

Embora o local não apresente evidências de grande produção têxtil, foram encontrados muitos objetos ligados ao trabalho com couro: agulhas, punções e ferramentas específicas.
O couro era crucial na mineração: servia para luvas, calçados, bolsas de transporte, correias e componentes de foles.

A comparação com achados da mina de Dürrnberg — onde foi encontrado um objeto de couro da Idade do Ferro tingido justamente com luteolina — fortalece a hipótese. Se esse pigmento já era usado séculos depois, sua presença abundante em Prigglitz-Gasteil sugere um domínio precoce da técnica.

Um vislumbre de uma economia circular pré-histórica

O estudo propõe que esses mineiros aproveitavam tudo: plantas que cresciam nos resíduos viravam pigmentos; minerais extraídos produziam naturalmente os mordentes; couro e tecidos recebiam tintura resistente.
Mesmo que os artefatos tingidos dificilmente sobrevivam, o conjunto de evidências é tão coerente que muitos especialistas consideram este o registro mais antigo do uso de gualda nos Alpes.

Longe da imagem austera da pré-história, esses trabalhadores podem ter vivido — e trabalhado — cercados por cores vibrantes produzidas com os próprios recursos da mina.

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