No nordeste do Quênia, uma descoberta inesperada revelou que algumas espécies de figueiras possuem uma capacidade singular: transformar parte do dióxido de carbono atmosférico em um mineral que se fixa no solo por séculos. Ao contrário da maioria das árvores, que estocam CO₂ em forma orgânica, essas espécies conseguem convertê-lo em carbonato de cálcio, abrindo caminho para uma estratégia natural e eficaz de mitigação climática.
Como árvores podem “criar” rochas com carbono

O estudo, apresentado na conferência internacional Goldschmidt em Praga, foi liderado por cientistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e da Universidade Adolfo Ibáñez (UAI), do Chile. Ele se concentrou em três espécies de figueira do gênero Ficus, cultivadas no condado de Samburu, no Quênia.
Essas árvores ativam uma rota biogeoquímica chamada via oxalato-carbonato. Durante esse processo, parte do CO₂ absorvido pela planta se transforma em cristais de oxalato de cálcio. Quando esses cristais se decompõem, microrganismos específicos, como fungos e bactérias, os convertem em carbonato de cálcio — o mesmo composto encontrado em rochas como calcário e giz.
Ao contrário do carbono armazenado em folhas ou madeira, que eventualmente retorna à atmosfera, o carbonato de cálcio permanece no solo ou na estrutura da árvore por centenas de anos.
A figueira mais eficiente no sequestro mineral
Entre as espécies analisadas, a Ficus wakefieldii foi a que apresentou maior eficiência na transformação de CO₂ em carbonato de cálcio. Os pesquisadores observaram depósitos do mineral tanto na superfície do tronco quanto nas camadas mais internas da madeira — uma evidência da ação conjunta entre a planta e microrganismos que colaboram nesse processo.
“Ao se formar o carbonato de cálcio, o solo ao redor do tronco torna-se mais alcalino”, explica o pesquisador Mike Rowley, da Universidade de Zurique. “Isso mostra que o carbono inorgânico pode ser fixado mais profundamente do que pensávamos, inclusive dentro da madeira.”
Tecnologia de ponta para analisar o fenômeno
Para estudar esse mecanismo, os cientistas utilizaram equipamentos avançados, como o Stanford Synchrotron Radiation Lightsource — laboratório nos EUA que usa radiação sincrotron para examinar materiais em escala microscópica. Com essa técnica, foi possível visualizar a formação dos cristais de oxalato e sua posterior conversão em carbonato em diversas partes da árvore.
Essa abordagem também ajudou a mapear quais microrganismos estão envolvidos no processo, o que pode orientar futuras aplicações em outros tipos de vegetação.
Agroflorestas com duplo benefício climático
A descoberta pode ter um impacto direto em práticas agroflorestais, especialmente em regiões tropicais. Os cientistas agora estudam o potencial dessas figueiras para produção de alimentos, necessidades hídricas e capacidade de sequestro de carbono em diferentes condições ambientais.
Enquanto a maioria dos estudos anteriores focava em árvores não comestíveis, como o Iroko (Milicia excelsa), esta nova pesquisa abre portas para integrar árvores frutíferas com alta eficiência de captura de CO₂ em projetos de reflorestamento e agricultura sustentável.
“Até agora, identificamos várias espécies com essa habilidade, mas acreditamos que há muitas mais por descobrir”, diz Rowley. “A via oxalato-carbonato pode representar uma oportunidade significativa e pouco explorada para enfrentar as emissões de carbono, especialmente ao plantar árvores que combinem produção de alimentos e benefícios ambientais.”
Um novo caminho contra o aquecimento global
Este estudo reforça a importância da biodiversidade como aliada no enfrentamento da crise climática. Incorporar árvores capazes de transformar CO₂ em minerais estáveis pode ampliar a eficácia de programas de reflorestamento, fortalecer a resiliência dos solos e oferecer soluções naturais duradouras.
Em tempos de temperaturas recordes e secas prolongadas, descobrir maneiras de fixar carbono por séculos — e não apenas por estações — é uma vantagem estratégica para a sobrevivência do planeta. E talvez, em um futuro próximo, plantar figueiras em regiões tropicais seja mais do que apenas produzir sombra ou alimento: pode ser um passo concreto rumo à estabilidade climática.
[ Fonte: Infobae ]