Com a chegada do verão, é comum que o número de baratas aumente nas ruas e dentro das casas. As temperaturas elevadas favorecem a atividade desses insetos, que passam a circular com mais frequência em busca de alimento e abrigo. Para muita gente, a solução parece simples: recorrer aos inseticidas. Mas a ciência mostra que esse método pode estar perdendo eficiência.
Especialistas em controle de pragas alertam que diversas espécies de baratas vêm desenvolvendo resistência aos produtos químicos usados há décadas. O fenômeno não é apenas genético. Em muitos casos, os insetos também estão mudando seus hábitos, evitando armadilhas e recusando iscas que antes consumiam sem dificuldade.
A resistência das baratas já é uma realidade

Em entrevista à rádio catalã Catalunya Ràdio, Andreu García, vice-presidente e porta-voz da Associação Catalã de Empresas de Saúde Ambiental (ADEPAP), afirmou que a resistência aos inseticidas deixou de ser uma hipótese para se tornar uma evidência observada por profissionais do setor.
Segundo ele, existem diferentes formas de adaptação. Algumas populações desenvolveram alterações genéticas que diminuem a eficácia dos princípios ativos presentes nos inseticidas. Em outras situações, a mudança ocorre no comportamento.
“Estamos observando resistências de diferentes tipos. Existem resistências genéticas, nas quais os inseticidas já não conseguem matar esses insetos, mas também resistências comportamentais. Há iscas que antes eram consumidas normalmente e que determinadas populações de baratas simplesmente deixaram de comer”, explicou García.
Essa capacidade de adaptação dificulta o controle das infestações e obriga empresas especializadas a revisar constantemente suas estratégias de combate.
Uma corrida evolutiva entre humanos e insetos
Durante a conversa, García também debateu o tema com Xavier Bellés, pesquisador do Instituto de Biologia Evolutiva, que destacou que o processo faz parte da própria evolução natural.
Sempre que uma população de insetos é exposta repetidamente ao mesmo produto químico, indivíduos naturalmente mais resistentes têm maior probabilidade de sobreviver e se reproduzir. Com o passar das gerações, essa característica se torna mais frequente, reduzindo a eficácia dos inseticidas.
Ao mesmo tempo em que os seres humanos desenvolvem novas tecnologias para combater pragas, as baratas também evoluem mecanismos capazes de neutralizar essas ameaças.
É um processo semelhante ao que ocorre com bactérias resistentes a antibióticos ou com ervas daninhas resistentes a determinados herbicidas utilizados na agricultura.
É possível eliminar completamente as baratas?

Apesar dos avanços no controle de pragas, os especialistas afirmam que a erradicação total das baratas é praticamente impossível.
Segundo García, o objetivo mais realista é manter as populações sob controle, reduzindo sua presença a níveis que não representem problemas sanitários ou grandes incômodos para a população.
Isso acontece porque esses insetos possuem enorme capacidade de adaptação, ciclos reprodutivos rápidos e conseguem sobreviver em diversos ambientes urbanos, especialmente em redes de esgoto, galerias subterrâneas, cozinhas e locais com oferta constante de alimento e umidade.
Na prática, a tendência é que as estratégias de combate continuem evoluindo ao lado das próprias pragas.
Um mito que continua circulando
Durante a entrevista, García também aproveitou para desmentir uma crença bastante popular.
Segundo ele, a ideia de que pisar em uma barata faz com que seus ovos fiquem presos na sola do sapato e sejam espalhados pela casa não tem fundamento científico.
Embora algumas espécies carreguem cápsulas de ovos, conhecidas como ootecas, a transmissão dessa forma por meio da sola do calçado é considerada um mito.
Para os especialistas, a melhor forma de prevenir infestações continua sendo adotar medidas básicas, como manter os ambientes limpos, eliminar fontes de água e alimento, vedar frestas e recorrer a empresas especializadas quando o problema foge do controle. Com a evolução constante desses insetos, o desafio deixa de ser eliminá-los definitivamente e passa a ser conviver com eles mantendo suas populações sob controle.
[ Fonte: Marca ]