Pular para o conteúdo
Ciência

Sem abelhas não há frutas, biodiversidade nem agricultura: por que esses insetos sustentam muito mais do que a produção de mel

Muito além de produzir mel, as abelhas desempenham um papel essencial na manutenção dos ecossistemas e da segurança alimentar global. Enquanto o setor apícola cresce e ganha importância econômica, cientistas alertam que o declínio desses polinizadores ameaça plantações, florestas e centenas de espécies que dependem diretamente de sua atividade.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos em abelhas, o mel costuma ser a primeira imagem que vem à mente. Mas a verdade é que esses pequenos insetos sustentam uma parte gigantesca da vida na Terra. Sem elas, culturas agrícolas como maçãs, amêndoas, mirtilos, cerejas e abacates sofreriam quedas drásticas de produtividade. Mais do que isso: ecossistemas inteiros perderiam um de seus principais mecanismos de reprodução vegetal.

No Dia Mundial das Abelhas, especialistas da Universidade do Chile reforçam a importância desses polinizadores para a biodiversidade, a agricultura e até mesmo para a ciência dos alimentos. Em um cenário de expansão da apicultura, mas também de crescentes ameaças ambientais, o alerta é claro: proteger as abelhas significa proteger o futuro da alimentação humana.

Um setor que continua crescendo

Se As Abelhas Desaparecerem
© Pixabay

A apicultura chilena vive um momento de forte expansão. Dados oficiais apontam a existência de mais de 5.600 apicultores e cerca de 1,1 milhão de colmeias distribuídas pelo país. O crescimento também aparece nas exportações.

Em 2024, o Chile exportou mais de 4 mil toneladas de mel, movimentando aproximadamente US$ 14,7 milhões. O resultado representou um salto superior a 70% tanto em volume quanto em valor em comparação com o ano anterior. Alemanha, Estados Unidos e França lideram a lista de compradores.

Mas o destaque não está apenas no mel. O país também ampliou significativamente as exportações de rainhas e colônias para reprodução, fortalecendo sua posição internacional no mercado de genética apícola.

A polinização que alimenta o planeta

Apesar da relevância econômica do setor, o maior valor das abelhas talvez seja invisível. Durante a coleta de néctar, elas transportam pólen entre flores, permitindo a reprodução de inúmeras espécies vegetais.

Segundo o pesquisador Edwar Fuentes Pérez, da Faculdade de Ciências Químicas e Farmacêuticas da Universidade do Chile, esse processo é indispensável para o funcionamento dos ecossistemas e para a produção de alimentos.

Grande parte das plantas cultivadas e das espécies silvestres depende, em maior ou menor grau, da ação de polinizadores. Sem esse serviço ecológico, a produtividade agrícola diminuiria e a diversidade vegetal seria severamente afetada.

A importância das abelhas vai além das lavouras. Elas também contribuem para a regeneração de florestas, a manutenção de habitats naturais e a sobrevivência de inúmeras espécies animais que dependem das plantas para alimento e abrigo.

Um patrimônio natural pouco conhecido

Embora a abelha-europeia (Apis mellifera) seja a espécie mais associada à produção de mel, ela está longe de ser a única presente na América do Sul.

O Chile abriga mais de 460 espécies nativas de abelhas. A maioria delas é solitária e não vive em colmeias organizadas. Muitas sequer produzem mel, mas desempenham funções essenciais na polinização de plantas nativas e endêmicas.

Esses insetos podem construir ninhos no solo, em troncos, galhos ou cavidades naturais. Em vários casos, desenvolveram relações altamente especializadas com determinadas espécies vegetais, tornando-se peças fundamentais para a conservação da biodiversidade local.

As ameaças que colocam as abelhas em risco

Abelha
© Dmitry Grigoriev -Unsplash

Apesar do crescimento da atividade apícola, as populações de abelhas enfrentam desafios cada vez maiores em todo o mundo.

Entre os principais fatores apontados pelos pesquisadores estão o uso intensivo de pesticidas, a expansão dos monocultivos, a destruição de habitats naturais, a introdução de espécies invasoras e os efeitos das mudanças climáticas.

No Chile, a fragmentação das áreas naturais, a pressão agrícola e os impactos de uma longa seca têm aumentado o estresse sobre as colmeias e sobre os polinizadores silvestres.

Para os especialistas, a proteção desses insetos exige ações coordenadas entre governos, produtores rurais, pesquisadores e apicultores. A preservação de áreas com vegetação nativa também é considerada uma estratégia essencial para garantir alimento e abrigo às populações de abelhas.

O que torna o mel um alimento tão especial

Além de seu valor econômico e ecológico, o mel continua despertando grande interesse científico.

Sua composição é extremamente complexa. Além de açúcares naturais como glicose e frutose, o alimento contém aminoácidos, proteínas, minerais, enzimas, compostos antioxidantes e partículas de pólen provenientes das flores visitadas pelas abelhas.

Essa combinação ajuda a explicar propriedades amplamente estudadas pela ciência, incluindo atividades antioxidantes, anti-inflamatórias e antibacterianas.

Pesquisas recentes também indicam que a estrutura microscópica do mel influencia diretamente sua bioatividade. Cientistas investigam como partículas coloidais e microrganismos naturalmente presentes nesse alimento podem potencializar seus efeitos biológicos.

Ao mesmo tempo, a diversidade da flora nativa produz méis com características únicas. Espécies vegetais como quilaia, boldo, peumo e ulmo originam produtos valorizados internacionalmente por seus aromas, sabores e propriedades diferenciadas.

Mais do que um simples adoçante natural, o mel representa o resultado de uma relação complexa entre insetos, plantas e ecossistemas. E sua existência depende diretamente da sobrevivência das abelhas — criaturas pequenas, mas absolutamente indispensáveis para a vida como a conhecemos.

 

[ Fonte: Radio Nuevo Mundo ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados