Durante muito tempo, relatos de estranhas luzes vermelhas aparecendo acima de tempestades eram tratados como exagero ou superstição. Pilotos e observadores afirmavam ver flashes rápidos no céu, mas faltavam provas. Só no final do século XX a ciência confirmou que esses fenômenos realmente existem. Hoje sabemos que eles fazem parte de um dos espetáculos mais raros da atmosfera terrestre — e ainda cheio de mistérios.
O fenômeno luminoso raro que aparece acima das tempestades

Quando pensamos em espetáculos do céu, é comum imaginar auroras boreais ou fogos de artifício naturais provocados por relâmpagos. Mas existe um fenômeno ainda mais raro que ocorre muito acima das nuvens de tempestade.
Essas estruturas luminosas são conhecidas como sprites, ou popularmente “duendes vermelhos”. Trata-se de descargas elétricas extremamente rápidas que surgem na mesosfera, uma camada da atmosfera localizada dezenas de quilômetros acima da superfície terrestre.
Ao contrário dos relâmpagos comuns, que se formam dentro das nuvens ou entre nuvens e solo, os sprites aparecem bem acima das tempestades. Eles surgem como estruturas luminosas avermelhadas que se ramificam verticalmente, lembrando raízes ou galhos brilhantes suspensos no céu.
Sua duração é incrivelmente curta: apenas alguns milissegundos.
Essa brevidade faz com que seja extremamente difícil observá-los a olho nu. Muitas vezes, eles só são percebidos quando câmeras capturam imagens durante tempestades e os flashes aparecem nas fotografias.
Por isso, registrar um sprite em imagem é considerado um verdadeiro golpe de sorte — mesmo para fotógrafos especializados.
A descoberta que mudou a forma como a ciência vê esses eventos
Durante séculos, relatos dessas luzes foram vistos com ceticismo. Muitos pilotos afirmavam enxergar flashes acima das tempestades durante voos noturnos, mas sem registros visuais a comunidade científica permanecia desconfiada.
Tudo mudou em 1989.
Naquele ano, pesquisadores da Universidade de Minnesota estavam testando uma câmera de alta sensibilidade voltada para o céu. O objetivo era registrar possíveis fenômenos relacionados a missões de foguetes.
Por acaso, o equipamento capturou um sprite.
Foi o primeiro registro visual confirmado desse fenômeno atmosférico. A partir desse momento, os chamados “duendes vermelhos” deixaram de ser uma curiosidade quase mítica e passaram a ser reconhecidos oficialmente pela ciência.
Desde então, a investigação desses eventos ganhou força. Instituições científicas e agências espaciais começaram a monitorar as tempestades com equipamentos mais sofisticados para entender melhor o que realmente acontece nessas altitudes.
Como os sprites realmente se formam
Apesar do nome que lembra criaturas mitológicas, os sprites têm uma explicação totalmente física.
Eles surgem quando tempestades extremamente intensas geram campos elétricos tão poderosos que sua influência se estende até as camadas superiores da atmosfera.
Quando essa energia alcança regiões mais altas, ocorre um processo de excitação dos átomos de nitrogênio presentes no ar. Esse processo libera uma breve emissão de luz.
O tom vermelho característico dos sprites ocorre justamente devido à forma como o nitrogênio reage durante essa descarga elétrica.
Em alguns casos, as partes inferiores do fenômeno podem apresentar tons azulados ou violetas.
Segundo especialistas em eletricidade atmosférica, essas estruturas não são simples faíscas de luz. Elas possuem uma arquitetura extremamente complexa formada por milhares de filamentos de plasma.
Esses filamentos podem se estender por dezenas de quilômetros na atmosfera, criando estruturas que lembram árvores luminosas gigantescas.
Apesar dessa dimensão impressionante, sua existência é quase instantânea.
Um fenômeno que ainda intriga os cientistas
Os sprites fazem parte de uma categoria maior de eventos chamados Eventos Luminosos Transientes, conhecidos pela sigla inglesa TLE (Transient Luminous Events).
Todos esses fenômenos ocorrem acima das tempestades e representam uma área relativamente nova de estudo que combina meteorologia, física atmosférica e física de altas energias.
Nas últimas décadas, novas tecnologias permitiram estudar esses eventos com muito mais detalhe.
Satélites, sensores ópticos e câmeras de alta velocidade passaram a registrar centenas de ocorrências todos os anos. A Estação Espacial Internacional também se tornou um ponto privilegiado de observação.
Vista do espaço, a estrutura dos sprites fica ainda mais impressionante. Eles aparecem como enormes colunas ou árvores de luz vermelha que parecem crescer sobre as nuvens de tempestade.
Essas observações ajudaram cientistas a compreender melhor a ligação entre relâmpagos intensos e os fenômenos luminosos que surgem nas camadas superiores da atmosfera.
Por que fotografar um sprite é tão difícil
Capturar um sprite em fotografia exige uma combinação quase perfeita de fatores.
Primeiro, é necessário que uma tempestade intensa esteja ativa em uma região específica. Em seguida, o fotógrafo precisa apontar sua câmera exatamente para a área correta do céu.
Mesmo assim, ainda depende de sorte.
A maioria dos especialistas utiliza câmeras extremamente sensíveis à luz, combinadas com longas exposições e monitoramento constante das tempestades.
Frequentemente, os sprites nem sequer são visíveis a olho nu. Eles só aparecem depois, quando as imagens são analisadas com cuidado.
Nos últimos anos, fotógrafos especializados em tempestades e astrofotografia conseguiram alguns dos registros mais impressionantes desse fenômeno.
Algumas das imagens mais espetaculares foram capturadas em regiões da Ásia e da Oceania, onde grandes tempestades tropicais ocorrem com frequência.
Ainda assim, cada fotografia de um sprite continua sendo considerada rara — quase como flagrar um segredo rápido da atmosfera terrestre.
[Fonte: National Geographic]