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Ciência

Durante tempestades, árvores disparam faíscas invisíveis de luz ultravioleta — e cientistas finalmente conseguiram registrar o fenômeno

Há quase um século, pesquisadores suspeitavam que as copas das árvores brilhavam discretamente durante tempestades elétricas. Agora, uma equipe conseguiu provar que folhas realmente emitem pequenas descargas — invisíveis a olho nu — que saltam como relâmpagos microscópicos entre seus galhos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Tempestades sempre foram sinônimo de trovões, raios e céus dramáticos. Mas acima das nossas cabeças pode estar ocorrendo um espetáculo ainda mais curioso — e invisível. Cientistas conseguiram registrar pela primeira vez pequenas descargas elétricas emitidas pelas pontas das folhas durante tempestades. O fenômeno, conhecido como “corona”, havia sido previsto teoricamente há décadas, mas nunca documentado diretamente na natureza até agora.

Caçando tempestades em uma minivan

No verão de 2024, pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia (Penn State) decidiram perseguir tempestades pelo leste dos Estados Unidos a bordo de uma Toyota Sienna adaptada. O objetivo era ousado: captar os breves e quase imperceptíveis flashes elétricos que surgem nas pontas das folhas quando o campo elétrico da atmosfera se intensifica.

Durante uma tempestade em Pembroke, na Carolina do Norte, a equipe apontou seus equipamentos para três árvores de liquidâmbar. O que parecia apenas chuva e vento escondia algo mais. A análise posterior das imagens revelou 41 episódios de pequenas descargas luminosas ao longo de 90 minutos.

Os flashes duravam cerca de três segundos e frequentemente “saltavam” de uma folha para outra.

O estudo foi publicado na revista científica Geophysical Research Letters e traz a primeira evidência visual direta das chamadas descargas corona nas copas das árvores durante tempestades.

“Sucede, é real. Nós vimos”, afirmou Patrick McFarland, meteorologista da Penn State e autor principal da pesquisa. “O mais empolgante é que agora temos provas concretas.”

O que são as descargas corona?

A ideia de que árvores poderiam emitir pequenas luzes durante tempestades não é nova. Experimentos de laboratório já haviam demonstrado que, quando uma nuvem carregada eletricamente passa sobre o solo, ela induz uma carga oposta na superfície terrestre.

Essa carga tenta alcançar o ponto mais alto possível — e nas árvores, isso significa as pontas das folhas.

Em laboratório, o efeito é extremamente sutil. “Você apaga todas as luzes, fecha portas e janelas, e mal consegue ver a corona. É um brilho azul muito fraco”, explicou McFarland.

Na natureza, a dificuldade é ainda maior. As descargas são invisíveis ao olho humano porque emitem principalmente radiação ultravioleta. Para detectá-las, a equipe utilizou uma câmera sensível a UV acoplada a um periscópio instalado no teto da minivan — que precisou ganhar um buraco de 30 centímetros para acomodar o equipamento. Segundo McFarland, isso certamente reduziu o valor de revenda do veículo.

Além da câmera, o grupo levou uma estação meteorológica portátil, detector de campo elétrico e um medidor a laser para acompanhar as condições atmosféricas em tempo real.

Um fenômeno mais comum do que se imaginava

Após o sucesso inicial na Carolina do Norte, os pesquisadores perseguiram outras quatro tempestades entre a Flórida e a Pensilvânia. Eles registraram o mesmo tipo de descarga em diferentes espécies, incluindo pinheiros.

Independentemente da intensidade da tempestade ou do tipo de árvore, as descargas apresentaram características semelhantes.

Isso sugere que o fenômeno pode ser muito mais frequente do que se imaginava. Segundo os autores, durante uma tempestade comum, centenas de milhares de folhas podem estar emitindo essas pequenas faíscas simultaneamente.

Se nossos olhos fossem capazes de enxergar no ultravioleta, a cena talvez fosse espetacular. McFarland compara o efeito a “centenas de libélulas ultravioletas pousando sobre a copa das árvores”.

Mais do que um espetáculo invisível

Além da curiosidade visual, o registro dessas descargas pode ajudar a compreender melhor a interação entre tempestades e vegetação. O fenômeno pode influenciar processos atmosféricos locais e até contribuir para o entendimento de como a eletricidade se distribui próximo ao solo antes da queda de raios.

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