A tecnologia Waste-to-Energy converte o calor da queima controlada de resíduos em energia elétrica. O processo trata gases e resíduos gerados, reduzindo em até 90% o volume de descarte que iria para aterros sanitários.
Com 37 mil m² de área, a Unidade de Recuperação Energética (URE) de Barueri vai atacar problemas crônicos como o esgotamento dos aterros, o transporte de lixo por longas distâncias e a emissão de gases de efeito estufa (GEE).
Financiada pelo grupo Orizon, a planta terá capacidade para processar 870 mil toneladas de lixo por dia e gerar 20 megawatts (MW) de energia — o suficiente para abastecer dezenas de milhares de residências.
“De tudo que entra na usina, apenas 10% vai para aterros. O restante vira cinzas inertes, sem contaminação”, explica Francisco Olivati, diretor da Interunion Santin Projetos e Integrações, responsável pela construção e engenharia do projeto.
Um marco para o Brasil e para a América Latina

De acordo com a Abren (Associação Brasileira de Energia de Resíduos), o projeto é um divisor de águas.
“Essa usina inaugura um setor até então inexistente no país, provando que é possível vencer barreiras regulatórias e financeiras”, afirma Yuri Schmitke, presidente da entidade.
A URE de Barueri não vai atender apenas o próprio município, mas também Santana de Parnaíba e Carapicuíba. A energia será conectada à linha de transmissão de 138 kV da Enel, com contratos de venda (PPAs) de 20 anos já firmados — resultado dos leilões A-5 de 2021 e 2022.
O modelo já é consolidado no exterior, especialmente em cidades da Europa, Ásia e Estados Unidos, onde existem mais de 1.800 usinas desse tipo tratando 11% de todo o lixo urbano do planeta.
Resistências e desafios no caminho
Apesar do potencial, o projeto ainda enfrenta resistência. Segundo a Abren, falta informação e sobra preconceito sobre usinas térmicas no Brasil.
“Há setores que ainda não conhecem as tecnologias modernas das UREs, que são seguras e seguem padrões internacionais de controle de emissões”, defende Schmitke.
Outro obstáculo é a burocracia. O modelo de remuneração é complexo e exige contratos de longo prazo para garantir tanto a venda de energia quanto o fornecimento contínuo de resíduos.
“O país ainda não tem um marco regulatório específico para esse tipo de energia, o que dificulta novos investimentos”, reforça Rodrigo Assumpção, superintendente de engenharia da Barueri Energia.
Mesmo assim, os especialistas são otimistas: a URE deve reduzir as emissões de metano, gás até 25 vezes mais potente que o CO₂, além de melhorar as condições sanitárias e de saúde pública.
O começo de uma revolução energética
Se der certo, a URE Barueri pode ser a primeira de muitas. A Abren estima que novos projetos semelhantes já estão em estudo, com potencial de gerar 200 mil empregos diretos e R$ 180 bilhões em investimentos até a próxima década.
A Braskem e outras empresas planejam usinas parecidas em Mauá, Campinas, Seropédica e Brasília. Em São Paulo, o plano é construir duas novas UREs até 2028, cada uma com capacidade para 1.000 toneladas de lixo por dia — e, até 2040, desviar 70% dos resíduos dos aterros.
“A URE Barueri é o primeiro passo para transformar um problema urbano em uma solução energética”, resume Schmitke.
[Fonte: UOL]