Depois de uma noite de exageros, muita gente conhece a receita: acordar com dor de cabeça, náusea e cansaço e tomar uma cerveja para “rebater” a ressaca. A estratégia é tão popular que ganhou até uma expressão em inglês, “hair of the dog”, algo equivalente à ideia de combater fogo com fogo.
Existe uma razão para algumas pessoas jurarem que funciona. Uma nova dose de álcool pode realmente diminuir temporariamente alguns sintomas. Isso, porém, está muito longe de significar que a ressaca foi curada.
Segundo o Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo dos Estados Unidos (NIAAA), continuar bebendo pode apenas prolongar o mal-estar. Não existe uma bebida, alimento ou medicamento cientificamente comprovado capaz de simplesmente eliminar uma ressaca.
A ressaca é muito mais do que desidratação

É comum atribuir a ressaca exclusivamente à falta de água. O álcool realmente aumenta a produção de urina ao interferir na liberação de vasopressina, hormônio que ajuda os rins a controlar a retenção de líquidos.
Isso contribui para sintomas como sede e, em alguns casos, dor de cabeça. Mas está longe de explicar tudo.
O álcool também irrita diretamente o estômago, aumenta a inflamação no organismo, prejudica a qualidade do sono e produz acetaldeído durante sua metabolização, uma substância tóxica que contribui para os efeitos desagradáveis associados ao consumo.
Além disso, enquanto a concentração de álcool no sangue retorna aproximadamente a zero, algumas pessoas experimentam sintomas semelhantes a um pequeno efeito de abstinência. O cérebro tenta recuperar seu equilíbrio depois de horas sob os efeitos depressores do álcool.
É justamente aí que outra cerveja pode parecer milagrosa.
Por que beber novamente parece funcionar
Ao introduzir álcool novamente no organismo, alguns dos efeitos sobre o sistema nervoso reaparecem. Ansiedade, inquietação e parte do desconforto podem diminuir temporariamente.
Mas o relógio não voltou ao início.
Quando o organismo metabolizar essa nova dose, os mecanismos responsáveis pela ressaca continuarão existindo. Em outras palavras, a cerveja não elimina a ressaca: pode apenas empurrar parte dela para mais tarde.
Uma revisão científica sobre ressaca e transtornos relacionados ao álcool também chama atenção para outro problema. Utilizar álcool para aliviar sensações negativas pode criar um mecanismo de reforço, no qual beber novamente passa a ser associado à redução do desconforto.
Por isso, transformar a cerveja da manhã seguinte em tratamento não é uma estratégia recomendada.
A ciência ainda não encontrou uma cura para a ressaca

Se cerveja não funciona, existe alguma alternativa realmente comprovada?
Até agora, não.
Uma revisão sistemática publicada na revista científica Addiction analisou 21 estudos envolvendo 386 participantes e diferentes intervenções para prevenir ou tratar a ressaca.
Algumas substâncias apresentaram resultados aparentemente positivos em estudos individuais, incluindo extrato de cravo, ginseng vermelho e suco de pera coreana. O problema é que os pesquisadores classificaram a qualidade das evidências disponíveis como muito baixa.
Não há, portanto, evidência científica suficientemente sólida para recomendar qualquer uma delas como uma cura eficaz.
Isso também ajuda a explicar por que receitas populares — café forte, banho frio, alimentos específicos ou suplementos vendidos como “anti-ressaca” — continuam sem uma comprovação consistente.
No fim, o principal remédio continua sendo o tempo
A recomendação pode não ser tão interessante quanto uma cura milagrosa, mas continua sendo a mais compatível com as evidências disponíveis.
O organismo precisa de tempo para metabolizar os subprodutos do álcool, recuperar líquidos, restaurar o funcionamento normal do sistema imunológico e permitir que o cérebro volte ao equilíbrio.
Água pode ajudar na hidratação e descanso pode aliviar o cansaço, mas nenhuma dessas medidas acelera magicamente a eliminação da ressaca.
A estratégia mais eficiente continua acontecendo antes que ela apareça: limitar a quantidade de álcool consumida.
E aquela cerveja gelada na manhã seguinte? Ela pode até dar a impressão de que o problema desapareceu. Na prática, porém, a ciência indica que você provavelmente está apenas adiando o inevitável.