A transformação já começou, embora em ritmos diferentes. Os data centers lideram a largada, com dezenas de projetos em andamento, enquanto as primeiras gigafábricas de baterias se aproximam da fase operacional. Já o hidrogênio avança mais lentamente, à espera de custos menores e de um mercado consumidor mais robusto.
A corrida pelos centros de dados

O ativo mais dinâmico do momento são os centros de dados, impulsionados por hiperescaladores como Amazon e Microsoft, empresas especializadas como Equinix e novos operadores focados em nuvem para inteligência artificial. Também entram no jogo grupos imobiliários locais e gigantes financeiros como Blackstone, KKR e CVC.
Segundo a associação Spain DC, há cerca de 130 projetos em diferentes fases no país. Por trás deles estão grandes construtoras como ACS, Acciona e Ferrovial, responsáveis por erguer as estruturas físicas que sustentam a economia digital.
Relatórios da consultoria CBRE estimam em cerca de 8 bilhões de euros os investimentos já em curso, com potencial de até 90 bilhões na Espanha e em Portugal ao longo da próxima década. Três regiões concentram o maior interesse: Catalunha, Madri e Aragão. Só Madri pode saltar de cerca de 160 megawatts (MW) operacionais para mais de 1.000 MW, enquanto Aragão desponta como grande promessa, com projetos que somam até 3.000 MW.
Executivos do setor destacam vantagens competitivas como energia renovável, disponibilidade de terrenos e custos relativamente baixos. Ao mesmo tempo, apontam entraves importantes, especialmente na conexão à rede elétrica, na obtenção de licenças e na adaptação às exigências ambientais.
Energia, água e licenças no centro do debate
Apesar do forte apetite dos investidores, os centros de dados enfrentam barreiras de entrada relevantes. Uma delas é a necessidade de garantir fornecimento elétrico estável em larga escala. Outra está ligada aos trâmites administrativos, que variam de município para município.
O consumo de água também virou tema sensível. Representantes do setor afirmam que a maioria das instalações na Europa já utiliza sistemas fechados de refrigeração, com reaproveitamento do líquido, mas a percepção pública de alto gasto hídrico continua gerando resistência em algumas regiões.
Para as construtoras, a combinação de licenciamento complexo e alta exigência técnica é hoje o principal desafio para acelerar novos projetos.
Gigafábricas e a aposta na mobilidade elétrica

Paralelamente, 2026 desponta como um ano-chave para as fábricas de baterias de carros elétricos. A expectativa é que a planta da Volkswagen em Sagunto, operada pela PowerCo, entre ao menos parcialmente em produção até o fim do próximo ano. O complexo já conta com mais de dez edifícios, projetados para manter níveis rigorosos de temperatura e umidade.
Outro projeto relevante é o da Stellantis, em Figueruelas, próximo a Zaragoza, que também deve iniciar atividades em breve.
Para a indústria automotiva, essas fábricas representam um passo estratégico. A associação Anfac destaca que produzir baterias localmente ajuda a reduzir custos, fortalecer a cadeia industrial e diminuir a dependência de outras regiões, além de abrir espaço para exportação de tecnologia.
Hidrogênio verde ainda busca escala

Já o hidrogênio renovável segue em compasso mais lento. Dois fatores explicam essa cautela: o alto custo de produção, ainda bem acima do preço médio da eletricidade, e a falta de demanda consistente fora do uso industrial tradicional.
Mesmo assim, projetos conhecidos como “vales do hidrogênio” avançam em regiões como Andaluzia, Castilla-La Mancha e Aragão. A Enagás trabalha em uma futura rede nacional de dutos e na conexão H2Med com a França, inicialmente prevista para 2030, mas que pode sofrer atrasos.
Entidades do setor energético veem o hidrogênio como peça-chave da descarbonização europeia, embora reconheçam que a tecnologia ainda precisa amadurecer e de um marco regulatório mais claro.
Um novo mapa de investimentos
Além dos data centers e das baterias, as construtoras também miram interconexões elétricas, infraestrutura para veículos elétricos, digitalização de rodovias e projetos de transição ecológica. Estimativas da associação Seopan apontam necessidades de dezenas de bilhões de euros nesses segmentos nos próximos anos.
O movimento sinaliza uma mudança estrutural: as infraestruturas do futuro deixam de ser apenas estradas e pontes para incluir servidores, redes inteligentes e moléculas verdes. A aposta é que, superados os gargalos atuais, esses projetos consolidem um novo ciclo industrial, no qual tecnologia e sustentabilidade caminham lado a lado.
[ Fonte: La Vanguardia ]