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Tecnologia

Brasil corre risco de ficar para trás na corrida global por centros de dados e tecnologia

A indefinição regulatória e o atraso na implementação de incentivos colocam em xeque a ambição do país de se tornar um polo estratégico para data centers, inteligência artificial e infraestrutura digital em um momento decisivo da competição internacional.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O Brasil reúne condições raras para se transformar em um hub global de centros de dados: abundância de energia renovável, posição geográfica estratégica e grande mercado interno. Ainda assim, esse potencial corre o risco de se perder em meio à burocracia, à insegurança jurídica e à lentidão do governo para regulamentar políticas anunciadas como essenciais para o setor.

O principal entrave hoje é a medida provisória criada em setembro passado dentro do plano Redata, que vence em fevereiro sem que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tenha definido as regras necessárias para seu funcionamento. Na prática, nenhuma empresa conseguiu acessar os incentivos prometidos, o que começa a gerar frustração e incerteza em um setor que exige decisões rápidas e investimentos de longo prazo.

Incentivos travados e insegurança jurídica

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O Redata previa benefícios fiscais relevantes para empresas que investissem em centros de dados no país. Em troca, as companhias deveriam destinar 2% do valor investido à pesquisa e desenvolvimento e garantir que ao menos 10% dos serviços fossem oferecidos ao mercado interno. O custo fiscal estimado para o governo seria de 7,5 bilhões de reais ao longo de três anos.

Sem regulamentação, porém, o modelo não saiu do papel. A ideia inicial era incorporar a medida ao projeto de lei sobre inteligência artificial, relatado pelo deputado Aguinaldo Ribeiro (PP), mas a tramitação também se encontra paralisada no Congresso. Para o setor, o cenário combina atraso regulatório com incerteza fiscal.

“O problema é que enfrentamos uma grande insegurança jurídica e tributária, sem saber qual cenário será aprovado, tanto em relação ao Redata quanto ao projeto de lei de inteligência artificial”, afirmou ao jornal O Globo Renan Lima, presidente da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC).

Investimentos bilionários em jogo

Segundo estimativas da Brasscom, associação que representa empresas de tecnologia da informação e comunicação, o Brasil poderia receber entre 10 bilhões e 20 bilhões de dólares em investimentos no setor apenas neste ano. A falta de clareza regulatória, no entanto, ameaça afastar principalmente empresas nacionais de médio porte, que têm menos margem para absorver riscos.

Dados da ABDC indicam que o país contava, em 2025, com 162 centros de dados, concentrados sobretudo no Sudeste. A expectativa era de expansão acelerada, mas os entraves burocráticos podem reduzir significativamente esse crescimento no curto prazo. Os grandes grupos globais, por outro lado, seguem apostando no país, ainda que com estratégias específicas.

ByteDance aposta no Ceará

Um exemplo emblemático é a ByteDance, controladora do TikTok, que iniciou a construção de um megadata center próximo ao porto de Pecém, no Ceará. O projeto será o maior do país dedicado a um único cliente e o primeiro voltado prioritariamente à exportação de serviços digitais.

Com capacidade inicial de 200 MW, o complexo prevê cinco centros de dados e um investimento anunciado de mais de 580 bilhões de reais, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Indústria. A primeira fase deve entrar em operação em setembro de 2027.

A empresa driblou parte da insegurança regulatória ao instalar o projeto dentro de uma Zona de Processamento de Exportações (ZPE), que já oferece benefícios fiscais e aduaneiros. O plano inclui ainda um parque eólico próprio e uma rede de transmissão de alta tensão para garantir o fornecimento de energia.

Impactos ambientais e tensões locais

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Apesar de ter recebido licença ambiental preliminar com base em um estudo simplificado, o projeto despertou preocupações. Em novembro de 2025, o Ministério Público Federal solicitou uma perícia para avaliar se seria necessário um estudo de impacto ambiental mais aprofundado. O laudo já foi concluído, mas ainda não foi divulgado.

Comunidades locais, incluindo povos indígenas, e ambientalistas alertam para riscos relacionados ao consumo de água e ao possível impacto sobre a Lagoa do Cauípe, principal reserva hídrica da região, já afetada por secas recorrentes. O debate reforça a tensão entre desenvolvimento tecnológico acelerado e sustentabilidade ambiental.

Ceará como hub tecnológico emergente

Com 13 centros de dados, o Ceará já ocupa a terceira posição nacional, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro. O estado se destaca pela infraestrutura moderna, certificações de alta confiabilidade e pela presença de 16 cabos submarinos, o que o torna um dos principais pontos de conexão digital das Américas.

Essa mesma infraestrutura desperta preocupações estratégicas, como riscos de sabotagem ou espionagem, além de debates sobre soberania digital. O governo estadual também aposta na mineração de bitcoin com energia renovável, aproveitando a chamada Digital Belt, uma extensa rede de fibra óptica ainda subutilizada.

IA, Big Techs e regulação fragmentada

Enquanto isso, o plano federal anunciado em 2024 para investir 23 bilhões de reais em inteligência artificial e posicionar o Brasil entre os países com supercomputadores mais potentes do mundo avança lentamente. Falta uma lei clara sobre IA e soberania digital, o que amplia a sensação de atraso.

A regulação das Big Techs segue um caminho pontual. Recentemente, órgãos federais exigiram que a empresa responsável pela plataforma X adotasse medidas contra o uso ilegal do chatbot Grok para a criação de conteúdos sexualizados. No campo eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral discute regras que obrigariam plataformas a remover conteúdos considerados antidemocráticos mesmo sem ordem judicial.

Especialistas alertam, porém, para o risco de excesso de censura automatizada e transferência de poder tipicamente judicial às plataformas. No conjunto, o cenário expõe um dilema central: sem uma visão integrada e regras claras, o Brasil pode perder tempo precioso em uma corrida tecnológica que não espera.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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