A expectativa é que a Itália assuma a tutela da embaixada argentina na capital venezuelana, encerrando um ciclo de mediação conduzido pelo Itamaraty em um dos contextos diplomáticos mais sensíveis da América do Sul nos últimos anos.
O papel do Brasil em Caracas desde 2024

O Brasil assumiu a representação dos interesses argentinos na Venezuela em um momento de forte deterioração das relações entre Buenos Aires e o governo de Nicolás Maduro. Sem embaixada ativa, a Argentina solicitou apoio brasileiro para garantir a proteção de sua sede diplomática e de cidadãos refugiados no local.
Desde então, o governo Lula atuou como intermediário em diversas frentes delicadas. Uma delas foi a garantia de condições mínimas de segurança e sobrevivência de refugiados venezuelanos que se encontravam sob proteção da embaixada argentina. Outra envolveu negociações diretas com o regime chavista para obter informações e pleitear a libertação de um agente da gendarmeria argentina preso no país em 2024.
Essas ações, segundo fontes do governo brasileiro, implicaram riscos diplomáticos e custos políticos, especialmente por envolver contatos frequentes com um regime que enfrenta críticas internacionais por violações de direitos humanos.
Postagens de Milei e o desgaste com o Planalto
O estopim para a decisão brasileira foi uma série de publicações de Javier Milei nas redes sociais, interpretadas em Brasília como ataques diretos e indiretos ao Brasil e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Uma das postagens mais sensíveis envolveu um vídeo comemorando a captura de Nicolás Maduro, que terminava com uma imagem de Lula abraçado ao líder venezuelano — uma associação vista pelo governo brasileiro como provocativa e desrespeitosa.
Outra publicação que gerou forte reação foi uma imagem divulgada por Milei após a vitória de José Antonio Kast como presidente eleito do Chile. Nela, a América do Sul aparecia dividida em dois blocos: a Argentina retratada como um país futurista, enquanto o Brasil era representado como uma grande favela.
Segundo interlocutores do Planalto ouvidos pela CNN Brasil, esse conjunto de mensagens consolidou a percepção de que não havia mais confiança política entre os dois governos para que o Brasil continuasse representando interesses argentinos em um cenário tão sensível quanto o venezuelano.
Mudança de cenário e decisão pelo encerramento
Fontes diplomáticas afirmam que a captura de Nicolás Maduro alterou significativamente o contexto em Caracas, reduzindo a necessidade de uma mediação ativa como a exercida pelo Brasil até então. Com a mudança das circunstâncias e o agravamento do desgaste político com Buenos Aires, o entendimento foi de que o ciclo estava encerrado.
“O Brasil assumiu riscos e fez gestões difíceis em nome da Argentina. Mas fica inviável manter esse papel diante de ataques reiterados e da ausência de confiança mútua”, resumiu uma fonte do governo brasileiro, sob condição de anonimato.
Itália deve assumir a representação argentina

Com a saída brasileira, a expectativa é que a Itália passe a representar os interesses diplomáticos da Argentina na Venezuela. O país europeu mantém relações históricas com Buenos Aires e é visto como uma opção politicamente mais neutra neste momento.
A decisão marca mais um capítulo da deterioração das relações entre os governos de Lula e Milei, que desde o início do mandato do presidente argentino acumulam divergências ideológicas, retóricas agressivas e gestos diplomáticos de distanciamento.
Para o Itamaraty, a mensagem é clara: a diplomacia exige confiança, previsibilidade e respeito institucional — elementos que, na avaliação do governo brasileiro, deixaram de existir na relação com a atual administração argentina.
[ Fonte: CNN Brasil ]