A mais recente reunião entre a China e os países da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) revelou uma mudança estratégica no cenário geopolítico do continente. Com novas linhas de crédito, acordos tecnológicos e gestos diplomáticos, Pequim deixa claro que quer mais do que boas relações: busca ocupar o espaço deixado pelos EUA na América Latina e reforçar sua liderança no Sul Global.
Um pacote financeiro com peso simbólico
Durante o IV Fórum Ministerial China-CELAC, o presidente Xi Jinping anunciou quase US$ 10 bilhões em créditos para países da América Latina e Caribe. Embora o valor seja menor que os US$ 20 bilhões ofertados em 2015, a novidade está na forma de transações: em yuan, não em dólar. O movimento visa reduzir a dependência da moeda americana.
Além disso, Xi anunciou a isenção de vistos para cidadãos de cinco países da região (a lista não foi revelada), como gesto de aproximação e fortalecimento dos laços diplomáticos.
Energia, tecnologia e uma nova rota comercial
A China também propôs parcerias em áreas como energia renovável, 5G, inteligência artificial e cibersegurança. Esses projetos se conectam à expansão da Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI) no continente, garantindo acesso chinês a recursos estratégicos como lítio, petróleo e terras raras.
Segundo a agência EFE, os chineses defendem que a América Latina tenha voz mais forte em um cenário de tensões internacionais, protecionismo e disputas comerciais.

Brasil no centro da estratégia
O Brasil é peça-chave nessa nova configuração. Em 2024, metade das importações latino-americanas da China vieram do país. Há US$ 4,5 bilhões em novos investimentos chineses no Brasil, em áreas que vão da indústria farmacêutica à produção de semicondutores.
Ainda assim, o presidente Lula deixou claro que a parceria não deve se transformar em dependência: “Nosso destino não depende de Xi Jinping, nem dos EUA, nem da União Europeia”, afirmou.
O Sul Global quer protagonismo
Comércio entre China e América Latina passou de US$ 12 bilhões, há duas décadas, para mais de US$ 500 bilhões em 2024. Xi Jinping reforçou a ideia de que China e América Latina devem se unir como blocos do Sul Global para enfrentar os desafios do mundo multipolar.
No encerramento do fórum, ficou evidente que o objetivo não é apenas econômico: a América Latina quer ser autora do seu próprio roteiro internacional. E a China, com investimentos e diplomacia estratégica, parece disposta a bancar esse novo capítulo.