Pular para o conteúdo
io9

Brasil no Oscar 2026: histórias que ampliam o cinema nacional

O Brasil chegou forte à temporada do Oscar 2026 — e não apenas por quantidade. A presença de quatro filmes brasileiros na lista de pré-selecionados revela algo maior: a força de narrativas indígenas, nipo-brasileiras e políticas que estão expandindo o imaginário do cinema nacional no exterior. É um momento de visibilidade rara, que coloca vozes diversas no centro do debate global.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

O agente secreto puxa os holofotes

O destaque mais imediato é O agente secreto, novo longa de Kleber Mendonça Filho. O filme apareceu em duas categorias da pré-lista: Melhor filme internacional e Melhor elenco, categoria inédita que premia o trabalho de direção de elenco.

A dupla indicação reforça a posição de Kleber como um dos cineastas brasileiros mais respeitados internacionalmente e amplia o alcance de um cinema que combina tensão política, olhar social e sofisticação estética — marca registrada do diretor.

Política, religião e democracia em foco

Outro nome que retorna ao radar da Academia é Petra Costa, com o documentário Apocalipse nos trópicos, pré-selecionado na categoria Melhor documentário. É a segunda vez que a cineasta aparece nessa fase da premiação — a primeira foi em 2020, com Democracia em vertigem.

No novo trabalho, Petra analisa as relações entre política e religião no Brasil, traçando paralelos entre o crescimento do movimento evangélico e a ascensão de Jair Bolsonaro. O documentário aposta em investigação, contexto histórico e leitura crítica do presente, reforçando o peso político do audiovisual brasileiro no cenário internacional.

Yanuni e a força do cinema indígena

Na categoria Melhor documentário em curta-metragem, o Brasil aparece com Yanuni, produção indígena protagonizada por Juma Xipaia, cacica da aldeia Kaarimãe, na Terra Indígena Xipaya, em Altamira (PA).

O curta acompanha a luta de Juma e de seu marido, Hugo Loss, contra o avanço do garimpo e da mineração ilegal. Dirigido por Richard Ladkani e produzido por Leonardo DiCaprio, o filme vai além do registro documental.

Para Juma, o projeto é uma forma de amplificar vozes historicamente silenciadas. Ela destaca que a liderança indígena dentro da equipe foi essencial para garantir autenticidade. O reconhecimento internacional, segundo a cacica, confirma que essas histórias estão sendo ouvidas — e que não se trata de “nós contra eles”, mas de uma luta comum.

Identidade nipo-brasileira no centro da narrativa

A diversidade brasileira também aparece na shortlist de Melhor curta-metragem com Amarela, dirigido pelo cineasta nipo-brasileiro André Hayato Saito.

O filme acompanha Erika Oguihara, uma adolescente que rejeita as tradições da família japonesa e enfrenta, durante a final da Copa do Mundo de 1998, uma experiência de violência que passa despercebida por quem está ao redor. A partir desse episódio, o curta explora racismo, não pertencimento e identidade.

Segundo André, a história nasce de uma inquietação pessoal. Crescer como nipo-brasileiro em São Paulo, em um país que muitas vezes enxerga descendentes asiáticos como estrangeiros, motivou o olhar do diretor. Para ele, ver uma narrativa asiático-brasileira reconhecida internacionalmente amplia o entendimento do que é — e de quem faz — o cinema brasileiro.

Um Brasil mais plural no Oscar

A presença de O agente secreto, Apocalipse nos trópicos, Yanuni e Amarela na pré-lista do Oscar 2026 aponta para um movimento claro: o cinema brasileiro está sendo visto como plural, político e profundamente conectado a questões identitárias.

Mais do que disputar estatuetas, esses filmes colocam o Brasil em diálogo com o mundo a partir de suas complexidades reais. Se o Oscar é uma vitrine, o país chega a ela mostrando que suas histórias não cabem mais em um único rótulo — e que justamente aí reside sua maior força.

[Fonte: Correio Braziliense]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados