O agente secreto puxa os holofotes
O destaque mais imediato é O agente secreto, novo longa de Kleber Mendonça Filho. O filme apareceu em duas categorias da pré-lista: Melhor filme internacional e Melhor elenco, categoria inédita que premia o trabalho de direção de elenco.
A dupla indicação reforça a posição de Kleber como um dos cineastas brasileiros mais respeitados internacionalmente e amplia o alcance de um cinema que combina tensão política, olhar social e sofisticação estética — marca registrada do diretor.
Política, religião e democracia em foco
Outro nome que retorna ao radar da Academia é Petra Costa, com o documentário Apocalipse nos trópicos, pré-selecionado na categoria Melhor documentário. É a segunda vez que a cineasta aparece nessa fase da premiação — a primeira foi em 2020, com Democracia em vertigem.
No novo trabalho, Petra analisa as relações entre política e religião no Brasil, traçando paralelos entre o crescimento do movimento evangélico e a ascensão de Jair Bolsonaro. O documentário aposta em investigação, contexto histórico e leitura crítica do presente, reforçando o peso político do audiovisual brasileiro no cenário internacional.
Yanuni e a força do cinema indígena
Na categoria Melhor documentário em curta-metragem, o Brasil aparece com Yanuni, produção indígena protagonizada por Juma Xipaia, cacica da aldeia Kaarimãe, na Terra Indígena Xipaya, em Altamira (PA).
O curta acompanha a luta de Juma e de seu marido, Hugo Loss, contra o avanço do garimpo e da mineração ilegal. Dirigido por Richard Ladkani e produzido por Leonardo DiCaprio, o filme vai além do registro documental.
Para Juma, o projeto é uma forma de amplificar vozes historicamente silenciadas. Ela destaca que a liderança indígena dentro da equipe foi essencial para garantir autenticidade. O reconhecimento internacional, segundo a cacica, confirma que essas histórias estão sendo ouvidas — e que não se trata de “nós contra eles”, mas de uma luta comum.
Identidade nipo-brasileira no centro da narrativa
A diversidade brasileira também aparece na shortlist de Melhor curta-metragem com Amarela, dirigido pelo cineasta nipo-brasileiro André Hayato Saito.
O filme acompanha Erika Oguihara, uma adolescente que rejeita as tradições da família japonesa e enfrenta, durante a final da Copa do Mundo de 1998, uma experiência de violência que passa despercebida por quem está ao redor. A partir desse episódio, o curta explora racismo, não pertencimento e identidade.
Segundo André, a história nasce de uma inquietação pessoal. Crescer como nipo-brasileiro em São Paulo, em um país que muitas vezes enxerga descendentes asiáticos como estrangeiros, motivou o olhar do diretor. Para ele, ver uma narrativa asiático-brasileira reconhecida internacionalmente amplia o entendimento do que é — e de quem faz — o cinema brasileiro.
Um Brasil mais plural no Oscar
A presença de O agente secreto, Apocalipse nos trópicos, Yanuni e Amarela na pré-lista do Oscar 2026 aponta para um movimento claro: o cinema brasileiro está sendo visto como plural, político e profundamente conectado a questões identitárias.
Mais do que disputar estatuetas, esses filmes colocam o Brasil em diálogo com o mundo a partir de suas complexidades reais. Se o Oscar é uma vitrine, o país chega a ela mostrando que suas histórias não cabem mais em um único rótulo — e que justamente aí reside sua maior força.
[Fonte: Correio Braziliense]