Renda cresce e desigualdade cai ao menor nível em décadas
Segundo o levantamento, a renda domiciliar per capita no Brasil cresceu cerca de 70% ao longo de 30 anos. No mesmo período, o índice de Gini — que mede a desigualdade — caiu quase 18%. Já a taxa de pobreza extrema despencou de 25% para menos de 5%.
O caminho até aqui, no entanto, não foi linear. O avanço foi mais forte entre 2003 e 2014, estagnou a partir de 2014 e sofreu um baque severo entre 2020 e 2021 com a pandemia. A virada veio a partir de 2021, quando a renda voltou a subir de forma consistente.
Em apenas três anos, a renda média cresceu mais de 25% em termos reais — o maior salto desde o Plano Real. Ao mesmo tempo, a desigualdade caiu de forma visível e os indicadores de pobreza recuaram.
O que explica a queda da pobreza no Brasil

De acordo com os pesquisadores do Ipea, o avanço recente tem duas bases principais: o mercado de trabalho aquecido e a ampliação das políticas de transferência de renda.
Programas como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC), Auxílio Brasil e o Auxílio Emergencial tiveram papel decisivo na redução da pobreza e da desigualdade, especialmente após 2020.
Segundo o estudo, quase metade da queda da desigualdade entre 2021 e 2024 veio dessas duas frentes: mais empregos e mais repasses diretos de renda.
Ainda assim, os pesquisadores alertam que o impacto das transferências começou a perder força em 2023 e 2024, com o fim do ciclo de expansão dos programas sociais. Já o mercado de trabalho continuou sendo o principal motor da melhora da renda.
Os números ainda mostram um Brasil desigual
Apesar dos avanços, os desafios continuam grandes. Em 2024:
– 4,8% dos brasileiros ainda viviam em pobreza extrema (menos de US$ 3 por dia)
– 26,8% estavam abaixo da linha de pobreza (menos de US$ 8,30 por dia)
Mais de 60% da redução da pobreza extrema entre 2021 e 2024 foi resultado direto de uma melhora na distribuição de renda, e não apenas do crescimento econômico bruto.
Outro ponto importante é que pesquisas domiciliares tendem a subestimar rendas muito altas e até parte das transferências, o que significa que a leitura dos dados exige cautela.
O papel dos impostos e da produtividade
O estudo também traz um alerta estrutural. Para manter a queda da desigualdade e da pobreza, não basta apenas transferir renda. Segundo os autores, o país precisa:
– Tornar os impostos mais justos
– Reduzir o peso dos juros da dívida pública
– Aumentar a produtividade do trabalho, principalmente entre os mais pobres
Ou seja, a melhora da renda precisa ser sustentável e não depender apenas de ciclos temporários de programas sociais.
O que esse cenário sinaliza para o futuro
O estudo conclui que o período pós-pandemia marcou uma quebra de padrão importante. Depois de anos de estagnação, o Brasil voltou a melhorar a renda, reduzir a desigualdade e combater a pobreza ao mesmo tempo.
O alerta agora é claro: sem continuidade nas políticas e sem um mercado de trabalho forte, esses avanços podem desacelerar. A pergunta que fica é se o país conseguirá transformar esse momento em uma tendência duradoura — ou se será apenas mais um ciclo passageiro.
[Fonte: TNH1]