A pesquisa, conduzida pelo Laboratório DesinfoPop, analisou mais de 80 milhões de mensagens publicadas entre 2016 e 2025 em 1.785 comunidades de teorias da conspiração em 18 países. Durante a pandemia de covid-19, o volume de postagens sobre vacinas disparou quase 700 vezes entre 2019 e 2021. E o epicentro dessa explosão foi o Brasil.
De acordo com o pesquisador Ergon Cugler, coordenador do estudo, o discurso negacionista do governo de Jair Bolsonaro teve papel decisivo na disseminação dessas ideias. “Quando um presidente ou ministro da Saúde questiona vacinas ou promove medicamentos sem eficácia, isso legitima o discurso conspiratório e dá combustível para que ele se espalhe”, explicou.
O estudo lembra que, entre 2020 e 2022, o governo brasileiro atrasou a compra de imunizantes, promoveu a ivermectina e a cloroquina como falsas curas para a covid e atacou medidas de isolamento. O resultado foi devastador: mais de 716 mil mortes até junho de 2025, segundo dados oficiais.
Telegram e o novo negócio do medo

O levantamento mostra que a desinformação não é apenas ideológica — ela virou um modelo de negócio. Em grupos do Telegram, usuários espalham fake news sobre “efeitos colaterais” inexistentes das vacinas e, logo em seguida, vendem produtos milagrosos para “neutralizar” esses danos.
Os pesquisadores identificaram 175 supostos efeitos falsos atribuídos às vacinas, sendo o mais comum o de “morte súbita”. A mentira aparece em quase 16% das mensagens analisadas. Outras alegações vão de “vacinas que mudam o DNA” a “injeções com microchips”, passando por falsos riscos de câncer, aborto espontâneo e infecção por HIV.
Em paralelo, circulam mais de 80 “tratamentos alternativos”, que misturam pseudociência, espiritualidade e produtos pagos. Alguns exemplos absurdos incluem o “aterramento” — técnica que consiste em andar descalço para “limpar energias do corpo” — e o uso de dióxido de cloro, uma substância tóxica vendida como “solução mineral milagrosa”.
Outros produtos prometem eliminar “metais da vacina” ou bloquear “radiações vacinais”. A própria ivermectina, popularizada por Bolsonaro, reaparece como “detox vacinal”.
O pânico como mercadoria
Essa fusão de ciência distorcida e discurso místico criou o que os pesquisadores chamam de “pseudocausalidade científica” — uma retórica que simula linguagem técnica para gerar medo e vender soluções falsas. “O pânico virou economia”, resume o relatório.
Influenciadores autodeclarados “especialistas” lucram com esse conteúdo, monetizando vídeos, vendendo suplementos e promovendo desconfiança contra médicos e autoridades sanitárias. E o problema é global: o estudo encontrou textos idênticos traduzidos e compartilhados em comunidades antivax de diferentes países, sempre com o mesmo objetivo — desinformar e lucrar.
O impacto que ainda persiste
Com a mudança de governo, o Ministério da Saúde retomou campanhas de vacinação e ações educativas, mas o estrago está longe de ser revertido. Mesmo em 2025, o volume de mensagens antivacina no Telegram segue 122 vezes maior do que antes da pandemia.
O pesquisador Ergon Cugler alerta que a crise vai além do combate a boatos: “O Brasil virou o epicentro latino-americano da desinformação antivacina. E isso não acontece por acaso. Plataformas ainda lucram com o engajamento do medo, e o país ainda engatinha no debate sobre regulação digital.”
Enquanto isso, o legado do negacionismo continua ecoando nas redes — transformando o medo em produto, o boato em verdade e o Brasil no grande laboratório da desinformação sobre vacinas.
[Fonte: Correio Braziliense]