Um brasileiro entre os cientistas mais influentes do mundo
A tradicional lista da revista científica britânica Nature destacou o engenheiro agrônomo e entomologista Luciano Moreira como uma das dez personalidades científicas que marcaram 2025. Ex-pesquisador da Fiocruz Minas e atual presidente da empresa Wolbito, ele lidera uma das estratégias de saúde pública mais inovadoras já adotadas no país contra doenças transmitidas por mosquitos.
O reconhecimento internacional veio após a inauguração, em julho, de uma fábrica em Curitiba dedicada à produção em larga escala de mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia. Os insetos, apelidados de “wolbitos”, têm capacidade reduzida de transmitir vírus como dengue, zika e chikungunya.
“Quase não acreditei. O mais importante é mostrar que o Brasil consegue fazer ciência de ponta e reduzir sofrimento e mortes”, afirmou Moreira após o anúncio.
Como funciona a estratégia com os “wolbitos”

A tecnologia por trás da iniciativa parece simples, mas levou anos de pesquisa. A bactéria Wolbachia não oferece risco aos humanos, mas interfere diretamente na capacidade do mosquito de transmitir patógenos. Ao se reproduzirem, os mosquitos com a bactéria passam essa característica adiante, reduzindo gradualmente a circulação dos vírus.
Inicialmente testada em projetos-piloto, a estratégia ganhou escala nacional em 2025 e passou a ser reconhecida oficialmente como medida de saúde pública. Hoje, é um dos pilares no enfrentamento da dengue no Brasil — uma doença que segue matando milhares de pessoas todos os anos.
Além da pesquisa científica, Moreira também foi responsável por convencer gestores públicos a adotar a tecnologia, algo nem sempre simples no campo da saúde.
Um ano marcado por ciência, política e decisões difíceis
Luciano Moreira divide espaço na lista com nomes ligados a algumas das descobertas mais impactantes do ano. Entre elas, o tratamento experimental liderado pela neurologista britânica Sarah Tabrizi, que conseguiu reduzir uma proteína ligada à doença de Huntington, condição genética rara e sem cura.
Outro destaque é o físico Tony Tyson, responsável pelo Observatório Vera Rubin, no Chile. O projeto abriga a maior câmera digital já construída, com 3.200 megapixels, e promete revolucionar o mapeamento do universo.
O primeiro tratado global sobre pandemias
A ciência também avançou fora dos laboratórios. Em 2025, negociações internacionais intensas resultaram na versão preliminar do primeiro tratado global de pandemias, coordenado pela Organização Mundial da Saúde.
A sul-africana Precious Matsoso teve papel central nesse processo, copresidindo o grupo responsável por articular o acordo entre quase 190 países. O tratado estabelece diretrizes para prevenção, resposta rápida e, principalmente, transferência de tecnologia para países de baixa renda — uma das grandes falhas expostas pela pandemia de covid-19.
Integridade científica, mesmo sob pressão
A lista da Nature também inclui histórias de resistência. O indiano Achal Agrawal largou a carreira como cientista de dados para combater práticas de plágio acadêmico em seu país. Seus esforços ajudaram a promover uma mudança regulatória histórica na Índia, que passou a penalizar universidades com alto índice de artigos plagiados.
Outro caso que chamou atenção foi o da microbiologista americana Susan Monarez, demitida após apenas um mês como diretora do CDC, o órgão de saúde pública dos EUA. Segundo ela, a exoneração ocorreu por se recusar a abrir mão da integridade científica diante de pressões políticas.
Ciência em meio ao conflito
Nem mesmo a guerra interrompeu a pesquisa da bióloga Yifat Merbl, do Instituto Weizmann, em Israel. Especialista no estudo do proteassoma — estrutura celular responsável por reciclar proteínas —, ela teve o laboratório destruído por um ataque de míssil, mas voltou ao local para salvar amostras essenciais para seus estudos.
A dedicação rendeu avanços importantes na compreensão de como proteínas geram múltiplas funções no organismo, com impacto direto na biologia molecular.
IA, oceanos profundos e edição genética
A Nature também destacou o empreendedor chinês Liang Wenfeng, fundador da empresa de inteligência artificial DeepSeek. Seu modelo de raciocínio em IA, o R1, entrou para a história como um dos primeiros grandes modelos de linguagem avaliados por revisão por pares.
Já nas profundezas do oceano, a cientista marinha Mengran Du identificou um ecossistema completamente novo a mais de 9 km abaixo da superfície, ampliando o conhecimento humano sobre a vida em ambientes extremos.
E no campo da medicina, o pequeno KJ Muldoon, conhecido como “Paciente Eta”, tornou-se o primeiro bebê a ser curado com uma terapia genética hiperpersonalizada baseada em CRISPR, após nascer com uma doença ultrarrara e potencialmente fatal.
Um recado claro da ciência em 2025
A lista da Nature deixa um recado poderoso: ciência não acontece isolada. Ela envolve decisões políticas, coragem ética, inovação tecnológica e impacto direto na vida das pessoas. O destaque de Luciano Moreira mostra que o Brasil não só participa desse cenário — como também lidera soluções que o mundo observa com atenção.
Em um ano marcado por crises globais e avanços históricos, a ciência voltou a provar que salvar vidas também é uma forma de mudar o futuro.
[Fonte: Correio Braziliense]