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Ciência

Brasileiro entra no top 10 da Nature e muda o combate à dengue

Entrar para a lista anual da Nature já é um feito raro. Estar entre os dez nomes que mais influenciaram a ciência mundial em um único ano é algo ainda mais extraordinário. Em 2025, um brasileiro alcançou esse patamar — não por acaso, com uma pesquisa que já salva vidas e mudou a forma como o Brasil enfrenta a dengue.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Um brasileiro entre os cientistas mais influentes do mundo

A tradicional lista da revista científica britânica Nature destacou o engenheiro agrônomo e entomologista Luciano Moreira como uma das dez personalidades científicas que marcaram 2025. Ex-pesquisador da Fiocruz Minas e atual presidente da empresa Wolbito, ele lidera uma das estratégias de saúde pública mais inovadoras já adotadas no país contra doenças transmitidas por mosquitos.

O reconhecimento internacional veio após a inauguração, em julho, de uma fábrica em Curitiba dedicada à produção em larga escala de mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia. Os insetos, apelidados de “wolbitos”, têm capacidade reduzida de transmitir vírus como dengue, zika e chikungunya.

“Quase não acreditei. O mais importante é mostrar que o Brasil consegue fazer ciência de ponta e reduzir sofrimento e mortes”, afirmou Moreira após o anúncio.

Como funciona a estratégia com os “wolbitos”

Brasileiro entra no top 10 da Nature e muda o combate à dengue
© Pexels

A tecnologia por trás da iniciativa parece simples, mas levou anos de pesquisa. A bactéria Wolbachia não oferece risco aos humanos, mas interfere diretamente na capacidade do mosquito de transmitir patógenos. Ao se reproduzirem, os mosquitos com a bactéria passam essa característica adiante, reduzindo gradualmente a circulação dos vírus.

Inicialmente testada em projetos-piloto, a estratégia ganhou escala nacional em 2025 e passou a ser reconhecida oficialmente como medida de saúde pública. Hoje, é um dos pilares no enfrentamento da dengue no Brasil — uma doença que segue matando milhares de pessoas todos os anos.

Além da pesquisa científica, Moreira também foi responsável por convencer gestores públicos a adotar a tecnologia, algo nem sempre simples no campo da saúde.

Um ano marcado por ciência, política e decisões difíceis

Luciano Moreira divide espaço na lista com nomes ligados a algumas das descobertas mais impactantes do ano. Entre elas, o tratamento experimental liderado pela neurologista britânica Sarah Tabrizi, que conseguiu reduzir uma proteína ligada à doença de Huntington, condição genética rara e sem cura.

Outro destaque é o físico Tony Tyson, responsável pelo Observatório Vera Rubin, no Chile. O projeto abriga a maior câmera digital já construída, com 3.200 megapixels, e promete revolucionar o mapeamento do universo.

O primeiro tratado global sobre pandemias

A ciência também avançou fora dos laboratórios. Em 2025, negociações internacionais intensas resultaram na versão preliminar do primeiro tratado global de pandemias, coordenado pela Organização Mundial da Saúde.

A sul-africana Precious Matsoso teve papel central nesse processo, copresidindo o grupo responsável por articular o acordo entre quase 190 países. O tratado estabelece diretrizes para prevenção, resposta rápida e, principalmente, transferência de tecnologia para países de baixa renda — uma das grandes falhas expostas pela pandemia de covid-19.

Integridade científica, mesmo sob pressão

A lista da Nature também inclui histórias de resistência. O indiano Achal Agrawal largou a carreira como cientista de dados para combater práticas de plágio acadêmico em seu país. Seus esforços ajudaram a promover uma mudança regulatória histórica na Índia, que passou a penalizar universidades com alto índice de artigos plagiados.

Outro caso que chamou atenção foi o da microbiologista americana Susan Monarez, demitida após apenas um mês como diretora do CDC, o órgão de saúde pública dos EUA. Segundo ela, a exoneração ocorreu por se recusar a abrir mão da integridade científica diante de pressões políticas.

Ciência em meio ao conflito

Nem mesmo a guerra interrompeu a pesquisa da bióloga Yifat Merbl, do Instituto Weizmann, em Israel. Especialista no estudo do proteassoma — estrutura celular responsável por reciclar proteínas —, ela teve o laboratório destruído por um ataque de míssil, mas voltou ao local para salvar amostras essenciais para seus estudos.

A dedicação rendeu avanços importantes na compreensão de como proteínas geram múltiplas funções no organismo, com impacto direto na biologia molecular.

IA, oceanos profundos e edição genética

A Nature também destacou o empreendedor chinês Liang Wenfeng, fundador da empresa de inteligência artificial DeepSeek. Seu modelo de raciocínio em IA, o R1, entrou para a história como um dos primeiros grandes modelos de linguagem avaliados por revisão por pares.

Já nas profundezas do oceano, a cientista marinha Mengran Du identificou um ecossistema completamente novo a mais de 9 km abaixo da superfície, ampliando o conhecimento humano sobre a vida em ambientes extremos.

E no campo da medicina, o pequeno KJ Muldoon, conhecido como “Paciente Eta”, tornou-se o primeiro bebê a ser curado com uma terapia genética hiperpersonalizada baseada em CRISPR, após nascer com uma doença ultrarrara e potencialmente fatal.

Um recado claro da ciência em 2025

A lista da Nature deixa um recado poderoso: ciência não acontece isolada. Ela envolve decisões políticas, coragem ética, inovação tecnológica e impacto direto na vida das pessoas. O destaque de Luciano Moreira mostra que o Brasil não só participa desse cenário — como também lidera soluções que o mundo observa com atenção.

Em um ano marcado por crises globais e avanços históricos, a ciência voltou a provar que salvar vidas também é uma forma de mudar o futuro.

[Fonte: Correio Braziliense]

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