O oceano armazena parte da energia que recebe do Sol, principalmente nas camadas próximas à superfície. Nas profundezas, a água permanece muito mais fria. Aproveitar esse contraste para gerar eletricidade é a proposta da conversão de energia térmica oceânica, conhecida pela sigla OTEC. Embora a ideia tenha décadas de pesquisa, transformar seu potencial em instalações confiáveis e economicamente viáveis ainda exige superar desafios importantes de engenharia.
Como a diferença de temperatura vira eletricidade

O princípio lembra o funcionamento de outras usinas térmicas: o calor transforma um fluido em vapor, que movimenta uma turbina. Depois, o resfriamento permite que esse fluido volte ao estado líquido e reinicie o ciclo.
Nesse caso, a água quente da superfície fornece o calor. Em sistemas de circuito fechado, ela aquece um fluido com baixo ponto de ebulição, como a amônia. Assim, não é necessário ferver a própria água do mar.
A água fria captada nas profundezas resfria o vapor após sua passagem pela turbina. O processo pode continuar enquanto houver uma diferença de temperatura adequada e os equipamentos permanecerem funcionando.
Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, sistemas OTEC utilizam um contraste térmico de pelo menos 20 °C. Isso explica o interesse por regiões tropicais, onde a superfície costuma ser bem mais quente que as águas profundas.
As Canárias funcionam como laboratório em mar aberto
O projeto PLOTEC reúne empresas e instituições europeias para desenvolver uma plataforma flutuante capaz de enfrentar condições difíceis no oceano. Entre os participantes estão a britânica Global OTEC e a Plataforma Oceânica de Canárias, a PLOCAN.
Em um balanço dos testes divulgado pela PLOCAN, a instituição informou que seu banco de ensaios já abrigava o protótipo Don desde outubro de 2025.
O trabalho avalia como a estrutura responde às ondas e às condições meteorológicas adversas. Esses dados ajudam os pesquisadores a comparar o comportamento real com os modelos utilizados no projeto.
A iniciativa recebeu apoio do programa europeu Horizonte Europa e do programa britânico UKRI. Segundo a PLOCAN, o investimento total chegou a 3,5 milhões de euros.
O objetivo dos ensaios é melhorar a engenharia necessária para futuras instalações. A presença de um protótipo no mar, por si só, ainda não comprova uma operação comercial competitiva.
O grande desafio está na estrutura
Captar água fria nas profundezas exige uma tubulação longa, conectada a uma plataforma que se movimenta com o oceano. Essa combinação impõe esforços sobre os tubos, as conexões e os sistemas de fixação.
O relatório técnico do PLOTEC na Comissão Europeia destaca a corrosão, o movimento do mar e as forças sobre a tubulação entre os principais obstáculos.
Por isso, o projeto também investiga materiais e uma conexão articulada entre a plataforma e o tubo de captação. A intenção é permitir movimentos sem comprometer a resistência do conjunto.
Além da estrutura, a equipe avalia fatores econômicos, sociais e ambientais. Uma solução energética precisa funcionar com segurança e apresentar custos compatíveis com as alternativas disponíveis.
Por que essa tecnologia interessa às ilhas
A principal promessa da OTEC é oferecer geração contínua em locais com condições térmicas favoráveis. O calor armazenado no oceano permite que o processo opere também durante a noite.
Essa característica pode interessar a territórios insulares que buscam reduzir sua dependência de combustíveis importados. A PLOCAN aponta especialmente pequenos países insulares e territórios tropicais entre os possíveis beneficiários.
As Canárias ajudam a testar a tecnologia, mas cada futura instalação dependerá das condições do local e de sua viabilidade econômica. O próximo avanço exige demonstrar que plataformas, tubulações e demais equipamentos conseguem transformar o contraste térmico do mar em uma fonte confiável de eletricidade.