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Tecnologia

Uma gigantesca “garrafa térmica” no deserto pode mudar a maneira como armazenamos energia solar

No meio de uma das regiões mais áridas do planeta, milhares de espelhos fazem algo incomum: transformam a luz do dia em energia capaz de continuar alimentando a rede horas depois.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A energia solar parece ter uma limitação impossível de ignorar: quando o Sol desaparece, os painéis deixam de produzir. Baterias são uma solução, mas não são a única. Em uma região remota da China, um enorme complexo energético está testando outra estratégia: capturar não apenas a eletricidade, mas o próprio calor da luz solar. E a escala do experimento revela por que essa tecnologia pode ganhar importância na corrida por energia renovável contínua.

O segredo está em não transformar toda a luz em eletricidade imediatamente

No deserto de Gobi, na região de Hami, em Xinjiang, a China colocou em operação um complexo híbrido de 1 GW que combina duas tecnologias solares diferentes. São 900 MW de geração fotovoltaica e outros 100 MW baseados em energia solar concentrada.

É justamente essa segunda parte que muda a história.

Enquanto os painéis convencionais transformam diretamente a luz em eletricidade, a tecnologia CSP utiliza espelhos para concentrar a radiação solar e produzir calor. O complexo conta com cerca de 260 mil refletores, distribuídos em aproximadamente 800 mil metros quadrados de área coletora.

Durante as horas de sol, os espelhos direcionam a energia para um sistema térmico capaz de aquecer sais fundidos a aproximadamente 550 °C.

Em vez de enviar toda aquela energia imediatamente para a rede, parte dela fica armazenada como calor.

Quando a geração fotovoltaica diminui, o sistema pode utilizar esse calor para produzir vapor. O vapor movimenta uma turbina, e a turbina volta a gerar eletricidade.

O resultado é uma espécie de reserva térmica que permite à parte solar concentrada continuar produzindo por até oito horas.

Isso não significa que os 900 MW de painéis fotovoltaicos continuem funcionando durante a noite. A diferença é importante: são os 100 MW da unidade termossolar que utilizam o calor previamente armazenado para prolongar a geração.

A “bateria” gigante que não depende de lítio

É aqui que o projeto de Hami fica especialmente interessante para o futuro das energias renováveis.

A geração fotovoltaica consegue produzir enormes quantidades de eletricidade durante o dia, mas sua produção varia conforme o horário, as nuvens e outras condições. O armazenamento térmico oferece uma maneira de deslocar parte dessa energia para períodos em que a demanda continua alta, mesmo depois do pôr do sol.

Em vez de armazenar elétrons em grandes conjuntos de baterias, o sistema conserva calor em sais fundidos.

O complexo ocupa cerca de 1.817 hectares e recebeu investimentos de aproximadamente 3,53 bilhões de yuans. Segundo a China Three Gorges Renewables, a instalação deverá produzir em média cerca de 2,07 bilhões de kWh por ano e evitar mais de 1,63 milhão de toneladas de CO₂ anualmente.

A ideia é que as duas tecnologias funcionem como peças complementares. Durante o dia, a fotovoltaica entrega grandes volumes de eletricidade. Quando sua produção começa a cair, a parte termossolar pode assumir uma parcela da geração utilizando a energia térmica acumulada.

É uma abordagem diferente da simples construção de mais painéis.

Em vez de tentar encontrar uma maneira de fazer o Sol aparecer durante a noite, a estratégia consiste em guardar uma parte do que ele entregou durante o dia.

O experimento no Gobi testa uma ideia que pode mudar a energia solar

A energia solar concentrada não é uma tecnologia nova. Ela exige grandes áreas, intensa radiação solar e uma infraestrutura mais complexa do que a de uma usina fotovoltaica convencional.

O que chama atenção em Hami é justamente a escala.

O projeto está entre as maiores instalações do mundo a utilizar tecnologia Fresnel nessa capacidade, levando o armazenamento térmico para um patamar muito mais próximo dos grandes complexos de geração elétrica.

Isso não significa que a tecnologia substituirá as baterias ou que todas as usinas solares passarão a utilizar espelhos e sais fundidos. Cada solução tem custos, limitações e condições específicas para funcionar bem.

Mas existe um problema que todas as grandes redes elétricas com muita energia solar precisam enfrentar: o momento em que a produção cai justamente quando a demanda ainda continua.

O complexo chinês oferece uma resposta diferente. A luz capturada durante o dia não precisa desaparecer completamente da rede quando o horizonte escurece.

No meio do Gobi, os milhares de espelhos transformam o calor do Sol em uma espécie de reserva energética. E é justamente quando o Sol deixa de ser visível que essa reserva começa a mostrar seu verdadeiro valor.

A grande inovação, portanto, não está apenas em produzir energia solar em uma escala gigantesca. Está em tentar fazer com que o horário do pôr do sol deixe de determinar exatamente quando essa energia precisa parar de trabalhar.

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