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Ciência

Câncer colorretal está aumentando entre crianças e adolescentes — e pode ser diferente da doença em adultos

Um estudo com pacientes de até 21 anos encontrou tumores frequentemente agressivos e diagnosticados em estágios avançados. Apesar de continuar raro nessa faixa etária, pesquisadores alertam para sintomas persistentes sem outra explicação.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O câncer colorretal continua sendo uma doença muito mais comum entre adultos mais velhos. Mas uma tendência preocupa pesquisadores: os casos vêm aumentando entre pessoas jovens, inclusive crianças e adolescentes.

Uma nova pesquisa sugere que, nesses pacientes, a doença também pode apresentar características diferentes das observadas normalmente em adultos.

Pesquisadores analisaram prontuários médicos de pacientes com até 21 anos diagnosticados com câncer colorretal. A maioria não apresentava histórico familiar da doença e muitos já possuíam tumores avançados e agressivos quando receberam o diagnóstico.

O risco absoluto para crianças e adolescentes permanece muito baixo. Ainda assim, os autores defendem que médicos considerem essa possibilidade diante de determinados sintomas persistentes sem uma causa alternativa identificada.

Casos aumentam entre pessoas mais jovens

Nas últimas décadas, pesquisadores identificaram um padrão incomum na incidência do câncer colorretal.

Enquanto casos e mortes vêm diminuindo entre pessoas com mais de 65 anos, a incidência tem aumentado entre adultos mais jovens.

Segundo a American Cancer Society, a incidência de câncer colorretal entre pessoas com menos de 50 anos aumentou cerca de 2,9% ao ano entre 2013 e 2022.

Outros estudos indicam que a tendência também pode estar ocorrendo entre crianças e adolescentes.

Mesmo assim, é importante colocar os números em perspectiva: câncer pediátrico continua sendo raro, e o câncer colorretal permanece muito mais frequente entre adultos.

Para entender melhor os casos em pacientes jovens, pesquisadores analisaram dados do Pediatric Surgical Oncology Research Collaborative, uma rede de centros norte-americanos que acompanha crianças e adolescentes com câncer.

Oito em cada dez pacientes tinham câncer avançado

O estudo avaliou 84 pacientes com até 21 anos diagnosticados com câncer colorretal entre 2012 e 2023.

A idade mediana no momento do diagnóstico foi de 16,5 anos.

Outro dado chamou atenção: entre o aparecimento dos sintomas e o diagnóstico, o intervalo mediano foi de 12 semanas.

Apenas cerca de 20% dos pacientes apresentavam histórico familiar de câncer colorretal.

Os pesquisadores concentraram a análise em casos considerados esporádicos, ou seja, pacientes sem condições genéticas ou outros problemas de saúde previamente conhecidos por aumentar o risco da doença.

Quando o câncer finalmente foi identificado, a maioria já estava em estágio avançado.

Cerca de 51% dos pacientes apresentavam doença em estágio III, enquanto outros 29% estavam no estágio IV.

Somados, aproximadamente 80% dos casos analisados já haviam atingido esses dois estágios.

Os tumores também apresentavam características consideradas particularmente agressivas.

O atraso no diagnóstico pode ter consequências graves

Os resultados ainda precisam ser interpretados com cautela.

A pesquisa será apresentada na conferência nacional da American Academy of Pediatrics e ainda não passou pelo processo convencional de revisão por pares.

Caso os resultados sejam confirmados, porém, eles sugerem que muitos pacientes jovens recebem o diagnóstico somente depois que o câncer começou a avançar além de seu local de origem.

A combinação de diagnóstico tardio e tumores agressivos pode ajudar a explicar outro dado preocupante.

Cerca de 37% dos pacientes apresentaram recidiva após o tratamento.

Ao final do período analisado, 45% haviam morrido.

Esses números não devem ser utilizados diretamente para estimar o prognóstico de qualquer criança ou adolescente com câncer colorretal, já que o estudo analisou um grupo pequeno e específico de pacientes.

Quais sintomas apareceram nos pacientes

A raridade do câncer pediátrico é justamente uma das razões pelas quais seus primeiros sinais podem passar despercebidos.

Muitos sintomas também são comuns a condições muito menos graves.

No estudo, os sinais relatados com maior frequência antes do diagnóstico incluíam dor abdominal ou nas costas, mudanças nos hábitos intestinais, perda de peso e sangramento retal.

Ter algum desses sintomas não significa que uma criança ou adolescente tenha câncer.

Dor abdominal e alterações intestinais, por exemplo, podem ter inúmeras causas benignas.

A recomendação dos pesquisadores é outra: quando esses sintomas persistem e não existe uma explicação alternativa clara, o câncer colorretal também deveria fazer parte das possibilidades consideradas durante a investigação médica.

Por que o câncer colorretal está aumentando entre jovens?

Essa ainda é uma das grandes perguntas sem resposta definitiva.

Nos Estados Unidos, aproximadamente 150 mil pessoas devem ser diagnosticadas com câncer colorretal anualmente.

Pesquisadores investigam diferentes hipóteses para explicar por que a doença está aumentando entre populações mais jovens.

Entre os possíveis fatores estudados estão dietas ricas em alimentos ultraprocessados e carnes processadas, obesidade, sedentarismo e determinadas infecções.

Até agora, porém, não existe uma única explicação capaz de justificar toda a tendência.

Também não está claro até que ponto os fatores responsáveis pelo aumento observado entre adultos jovens são os mesmos envolvidos nos raríssimos casos pediátricos.

O novo estudo acrescenta outra peça ao problema: quando o câncer colorretal aparece em crianças e adolescentes, ele pode ser identificado tarde e apresentar comportamento agressivo.

Por isso, os pesquisadores defendem maior atenção a sintomas persistentes ou inexplicáveis nessa população — sem perder de vista que, mesmo com o aumento registrado nos últimos anos, o câncer colorretal continua sendo extremamente incomum entre crianças e adolescentes.

 

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