Assistentes virtuais, chats automáticos, recomendações infinitas e conteúdos gerados por inteligência artificial passaram a ocupar todos os cantos da vida cotidiana. Em reação a esse excesso, um número crescente de pessoas tem buscado alternativas mais lentas, tangíveis e deliberadamente offline. Em 2026, esse movimento ganhou nome, mercado e discurso próprio: o chamado “estilo de vida analógico”, que propõe reduzir a dependência digital sem necessariamente rejeitar a tecnologia.
O que é, afinal, o “estilo de vida analógico”
Diferente de um detox digital de fim de semana, o estilo de vida analógico é apresentado como uma mudança mais profunda de hábitos. A proposta não é apenas “desconectar”, mas retomar atividades manuais, processos lentos e experiências físicas — especialmente em um momento em que plataformas de IA generativa passaram a escrever, criar imagens, planejar rotinas e até sugerir pensamentos.
Para muitos adeptos, trata-se de recuperar a sensação de fazer algo do começo ao fim, sem automação. Ler um livro físico, escrever listas à mão, ouvir música sem algoritmo, tirar uma única foto em filme em vez de dezenas no celular. Pequenos gestos que, juntos, funcionam como um freio simbólico à aceleração digital.
Hobbies analógicos explodem em popularidade

Embora seja difícil medir o tamanho exato do fenômeno, os números do varejo ajudam a contar a história. A rede americana de artes e artesanato Michael’s, com mais de 1.300 lojas na América do Norte, registrou um aumento de 136% nas buscas por “hobbies analógicos” em seu site nos últimos seis meses.
As vendas de kits de artesanato guiados cresceram 86% em 2025, e a empresa projeta mais 30% a 40% de alta em 2026. Um dos destaques são os chamados “hobbies de avó”: só as buscas por kits de tricô e lã cresceram impressionantes 1.200% no último ano. A empresa já anunciou que vai ampliar o espaço dedicado a materiais de tricô em suas lojas.
Segundo Stacey Shively, diretora de merchandising da Michael’s, muitas pessoas passaram a usar o artesanato como uma forma de descanso mental e fuga do “doomscrolling”, hábito intensificado após a pandemia. Para ela, trata-se de uma mudança cultural em curso, não de uma moda passageira.
“O ódio à IA” como motor cultural
Entre os adeptos do estilo analógico estão pessoas que se definem abertamente como críticas da inteligência artificial. É o caso de Shaughnessy Barker, de 25 anos, moradora do Canadá, que prefere ser contatada por telefone fixo ou carta. Criada entre rádios, discos de vinil e fitas, ela diz que hoje a internet se tornou excessivamente orientada ao lucro e pouco ao prazer.
Barker organiza noites de artesanato sem tecnologia, escreve bilhetes à mão, limita o tempo no computador e passou a usar um “celular burro” quando sai de casa. Ainda assim, reconhece a contradição: para divulgar sua loja vintage e seu clube de troca de cartas, depende justamente das redes sociais.
“Sou um paradoxo ambulante”, admite. “Quero sair do celular, mas faço TikToks sobre isso.”
Menos dados, menos algoritmos, mais controle

Para pesquisadores, o cansaço com a IA não é apenas estético. Avriel Epps, pesquisadora em inteligência artificial e professora da Universidade da Califórnia em Riverside, aponta que o chamado “AI slop” — conteúdos repetitivos, genéricos e gerados em massa — provoca fadiga cognitiva.
Segundo Epps, adotar práticas analógicas não significa rejeitar toda tecnologia. Em muitos casos, trata-se de reduzir a coleta de dados pessoais e a mediação algorítmica. Trocar o streaming por um iPod antigo, usar um despertador físico ou instituir domingos sem telas são formas de recuperar autonomia sobre a própria atenção.
“Não é cortar o acesso à informação”, resume Epps. “É cortar o acesso da internet às informações sobre mim.”
Performance ou mudança real?
A crítica mais comum ao movimento é que ele seria apenas performático — um estilo de vida “instagramável” vendido como autenticidade. E há alguma verdade nisso. Muitos adeptos escolhem substituições fáceis, sem abrir mão de conexões digitais essenciais, como chamadas de vídeo com a família ou o trabalho remoto.
Ainda assim, experiências relatadas por quem tenta ficar offline por alguns dias apontam ganhos concretos: mais tempo livre, sensação de realização fora das telas e interações sociais menos mediadas. Em encontros presenciais, como círculos de tricô em bibliotecas, pessoas de diferentes idades compartilham técnicas, conversas e silêncio — tudo sem notificações.
No fim, talvez o estilo de vida analógico não seja uma rejeição à tecnologia, mas um pedido coletivo por limites. Em um mundo onde a inteligência artificial faz cada vez mais por nós, voltar a fazer algo com as próprias mãos pode ser menos sobre nostalgia — e mais sobre preservar o que ainda nos parece humano.
[ Fonte: CNN ]