Durante a pandemia, quando cidades pararam, fronteiras fecharam e corpos se isolaram, algo seguiu funcionando com eficiência implacável: o mercado financeiro. Para o escritor argentino Michel Nieva, esse detalhe revelou mais do que uma curiosidade econômica. Indicou que o capitalismo pode ter atingido um estágio em que a presença humana deixou de ser essencial. Essa intuição atravessa seus ensaios e romances, que usam a ficção científica como ferramenta crítica para desmontar as promessas tecnológicas do nosso tempo.
Quando a ficção científica parou de imaginar alternativas
No ensaio Ciencia ficción capitalista (Anagrama, 2024), Nieva parte de uma constatação incômoda: boa parte do discurso tecnológico contemporâneo se apropria da estética e das ideias da ficção científica clássica, mas esvaziando seu potencial crítico. Termos, narrativas e imagens que antes serviam para questionar o futuro agora são usados para legitimá-lo como inevitável.
Segundo o autor, a ficção científica deixou de imaginar mundos possíveis para funcionar como mitologia do capitalismo tardio. Em vez de perguntar “que futuro queremos?”, ela passa a sustentar a ideia de que só existe um caminho: aquele guiado pela tecnologia corporativa. É um deslocamento que transforma a imaginação em ferramenta de consolidação do sistema.
A pandemia como ensaio involuntário
A experiência global da covid-19 ocupa um lugar central no pensamento de Nieva. O isolamento, a vida mediada por telas, o consumo automatizado e a gestão algorítmica do cotidiano mostraram que o sistema econômico não apenas sobreviveu à crise, como se adaptou rapidamente.
Enquanto pessoas enfrentavam medo, escassez e ansiedade, algoritmos continuavam operando sem pausa. Para o escritor, isso evidenciou que o capitalismo já não gira em torno dos corpos humanos, mas os trata como variáveis descartáveis. Essa lógica extrema é o ponto de partida de sua ficção.

Gauchopunk: imaginar o futuro desde o Sul
Em Ficciones gauchopunks (Caja Negra), Nieva desloca a ficção científica do eixo tradicional do Norte global. Em vez de laboratórios futuristas e cidades assépticas, surgem paisagens latino-americanas: a pampa, a fronteira, o gaucho. Mas tudo atravessado por próteses, androides, resíduos tecnológicos e violência estrutural.
A tecnologia, nesses mundos, não chega como redenção, mas como continuidade do saque, da exploração e da colonização — agora potencializadas por máquinas e algoritmos. O futuro não corrige o passado: ele o intensifica.
O mito do salvador tecnológico
Nieva também critica a figura do empresário visionário que promete salvar a humanidade com inovação. Para ele, trata-se de uma versão moderna do patriarca messiânico: alguém que oferece soluções simples para problemas complexos, enquanto concentra poder e define o futuro de forma unilateral.
Nesse cenário, plataformas digitais funcionam como novos feudos. Espaços indispensáveis para a vida social, mas regidos por regras que os usuários não controlam. O futuro proposto não é coletivo — é corporativo.
Uma ficção sem anestesia
A obra de Michel Nieva não oferece utopias nem conforto. Seus mundos exageram o presente até torná-lo insuportável, obrigando o leitor a encarar uma possibilidade perturbadora: talvez o sistema não precise mais de nós. Em contraste com a ficção otimista vendida pelo Vale do Silício, sua literatura propõe algo mais duro — olhar para o agora sem ilusões.