Durante o século XX, os Estados Unidos foram o parceiro econômico indiscutível da América Latina. Hoje, esse papel é disputado — e, em muitos países, superado — pela China. No livro Desplazamiento económico: China y el fin de la primacía estadounidense en América Latina, o cientista político Francisco Urdínez examina como Pequim preencheu o vácuo deixado por Washington e alerta: o equilíbrio entre as duas potências está se tornando insustentável.
Um deslocamento histórico de poder

Urdínez demonstra que, entre 2001 e 2020, a China substituiu gradualmente os Estados Unidos como principal fonte de comércio, crédito e investimento na região. O fenômeno, afirma, não é apenas comercial — trata-se de uma mudança estrutural de poder.
Nos anos 1970 e 1980, os EUA eram o maior investidor estrangeiro e principal financiador de projetos latino-americanos. Mas, à medida que Washington redirecionou sua atenção para outras áreas consideradas estratégicas, como o Oriente Médio e o Pacífico, empresas americanas se retraíram. Pequim, então, ocupou o espaço: investiu em infraestrutura, energia e mineração e se tornou o maior comprador de commodities da região.
“China não é uma caixa-preta que apenas compra matérias-primas”, explica Urdínez. “É um ecossistema de bancos, empresas e agências que passou a influenciar as economias latino-americanas em múltiplos níveis.”
O conceito de “deslocamento econômico”
Para medir essa virada, o pesquisador criou um índice que compara o peso econômico de China e Estados Unidos no PIB de cada país. O “deslocamento” ocorre quando o peso chinês supera o americano — um marco que já se consolidou em quase toda a América do Sul.
O resultado é claro: China se tornou o principal parceiro comercial da maioria das nações sul-americanas, enquanto os EUA mantêm maior presença apenas no México e na América Central. “O crescimento econômico chinês inevitavelmente se traduz em influência política”, afirma o autor, que enxerga no processo uma transformação comparável à ascensão dos EUA após a Segunda Guerra Mundial.
Rivalidade sem ideologia
Urdínez rejeita a ideia de uma “nova Guerra Fria”. Para ele, a disputa sino-americana é econômica e tecnológica, não ideológica. Ao contrário da União Soviética, a China não propõe um modelo alternativo ao capitalismo — pratica um “capitalismo de Estado” orientado à acumulação e à eficiência.
A competição, diz, se dá por setores estratégicos como semicondutores, inteligência artificial e transição energética. “Não veremos confronto militar, mas sim uma corrida para dominar as indústrias que definirão o século XXI.”
Quando a economia fala mais alto que a ideologia

Apesar das diferenças políticas, governos de distintas orientações têm aprofundado vínculos com a China. Mauricio Macri, Jair Bolsonaro e Javier Milei criticaram Pequim em discurso, mas mantiveram — ou até ampliaram — os acordos comerciais. O mesmo ocorreu em sentido oposto no Chile, onde a cooperação foi mais fluida sob o governo de direita de Sebastián Piñera do que sob o atual de Gabriel Boric.
Segundo Urdínez, isso comprova que a ideologia é secundária diante da interdependência econômica. “As decisões de investimento e comércio seguem lógicas pragmáticas e são impulsionadas também por atores privados e subnacionais, não apenas pelos governos.”
O dilema latino-americano
O autor alerta que manter o equilíbrio entre China e Estados Unidos será cada vez mais difícil. Países que antes conseguiram negociar com ambos — como Chile e Peru, com acordos de livre comércio nas duas direções — enfrentarão um cenário mais binário, à medida que Washington adota uma política de “amigo ou inimigo”.
Esse novo contexto pode redefinir campanhas eleitorais e estratégias de Estado em toda a região. “O desafio será resistir às pressões externas e entender que a relação com a China dificilmente se reverterá”, conclui Urdínez.
Enquanto os EUA tentam recuperar terreno, a China já consolidou seu papel como principal parceiro econômico da América do Sul — um fato que, segundo o politólogo, marca o início de uma nova ordem regional e um teste decisivo para a autonomia latino-americana.
[ Fonte: Página12 ]