A inteligência artificial está mudando tudo — inclusive a forma como o mundo consome energia. À medida que modelos cada vez maiores exigem volumes gigantescos de eletricidade, cresce o temor de que a infraestrutura terrestre simplesmente não dê conta. É nesse cenário que uma ideia extrema ganha força: levar servidores para o espaço e usar o Sol, sem intermediários, como fonte quase infinita de energia.
A ideia que parecia absurda começa a ganhar forma

Um dos nomes por trás dessa virada é Baiju Bhatt, cofundador da Robinhood. Em 2024, ele criou a Aetherflux com o objetivo inicial de captar energia solar no espaço e transmiti-la para a Terra. Pouco depois, o plano evoluiu para algo ainda mais ambicioso: construir centros de dados diretamente em órbita.
A lógica é simples. Se os servidores precisam de enormes quantidades de eletricidade, por que não colocá-los onde a energia solar é constante, intensa e praticamente ilimitada? Para Bhatt, a humanidade vive um momento inédito, em que as necessidades energéticas mudam mais rápido do que a capacidade da infraestrutura tradicional de acompanhá-las.
Satélites com chips de IA já têm data
Em dezembro, a Aetherflux anunciou que lançará seu primeiro satélite com chips de inteligência artificial no início de 2027. O projeto foi batizado de Galactic Brain. Cada unidade deverá carregar cerca de dez GPUs interligadas, painéis solares de aproximadamente 93 metros quadrados e grandes radiadores para dissipar o calor gerado pelos chips.
O plano de longo prazo é ainda mais ousado: uma constelação com milhares desses nós até 2030, capaz de competir, em capacidade de processamento, com grandes centros de dados em solo. Até agora, a empresa levantou US$ 90 milhões e já é avaliada em cerca de US$ 270 milhões.
Google, Musk e Bezos também estão de olho

Bhatt não está sozinho. Eric Schmidt assumiu o controle da fabricante aeroespacial Relativity Space com o objetivo explícito de construir centros de dados em órbita. Pouco depois, Sundar Pichai apresentou o Projeto Suncatcher, que prevê satélites equipados com TPUs — os chips de IA do Google — para impulsionar o modelo Gemini a partir de 2027.
Segundo o Wall Street Journal, Elon Musk e Jeff Bezos também trabalham ativamente em projetos semelhantes por meio da SpaceX e da Blue Origin.
O gargalo que pode travar — ou viabilizar — tudo
Apesar do entusiasmo, o modelo econômico ainda não fecha. Para o analista espacial Chris Quilty, o fator decisivo será o custo de lançamento. Hoje, mesmo com foguetes reutilizáveis, o valor mais baixo gira em torno de US$ 1.500 por quilo. Para que centros de dados orbitais façam sentido, esse custo precisaria cair para algo entre US$ 200 e US$ 300 por quilo.
Segundo Philip Johnston, CEO da startup Starcloud, apoiada pela Nvidia, só nesse patamar a energia espacial ficaria mais barata do que a terrestre. A empresa afirma já ter treinado com sucesso um modelo de IA no espaço — um feito simbólico, mas relevante.
Energia, água e burocracia: vantagens inesperadas
O interesse por soluções orbitais cresce porque o problema na Terra é real. A Agência Internacional de Energia estima que, em cinco anos, o consumo energético global de centros de dados dobrará. No caso da IA, o crescimento anual projetado é de 30%.
Além da energia, centros de dados exigem água para resfriamento, grandes áreas físicas e enfrentam resistência local, licenças ambientais e longos prazos de construção. No espaço, esses entraves simplesmente desaparecem: uma vez lançados, os servidores começam a operar quase imediatamente.
Os obstáculos que ainda parecem intransponíveis
Nem tudo, porém, é vantagem. No vácuo espacial, não há ar nem água para resfriamento. O calor precisa ser dissipado por radiadores gigantes, ainda difíceis de tornar leves, baratos e eficientes. Os chips também precisam de proteção contra radiação cósmica, o que aumenta peso e complexidade.
Há ainda o risco da saturação da órbita baixa da Terra, já congestionada por satélites e detritos, além do impacto da poluição luminosa causada por enormes painéis solares refletindo luz.
Ficção científica hoje, infraestrutura amanhã?
Mesmo com tantas incertezas, o dinheiro continua entrando. A Starcloud negocia com o Pentágono o uso de GPUs orbitais para análise de dados militares e afirma ter uma carta de intenção de US$ 13 bilhões ligada ao projeto Stargate, da OpenAI.
Para Bhatt, a visão de longo prazo é clara: em cerca de dez anos, centros de dados no espaço podem deixar de ser exceção. Alguns, como Bezos, acreditam que quase toda a nova infraestrutura de IA será construída fora da Terra. “Minha grande visão é criar algo que pareça anéis ao redor do planeta”, diz Bhatt. Hoje soa exagerado — mas, na corrida energética da IA, ideias improváveis estão virando planos concretos muito rápido.
[ Fonte: Forbes ]