Durante anos, o discurso dominante sobre inteligência artificial prometia aumento de produtividade, novas oportunidades e transformação do trabalho. Mas, para muitos jovens que estão tentando entrar no mercado agora, a realidade começa a parecer muito menos otimista.
Os primeiros sinais já haviam aparecido em 2025. Dados do Federal Reserve Bank of New York mostraram que o mercado de trabalho para pessoas entre 22 e 27 anos sofreu uma deterioração significativa ao longo do ano. Posteriormente, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, admitiu que a inteligência artificial provavelmente estava desempenhando um papel importante nessa mudança.
Agora, um novo levantamento internacional indica que a situação pode piorar ainda mais nos próximos anos.
A pesquisa, realizada pela consultoria Oliver Wyman com executivos de grandes empresas globais, revela que CEOs estão reduzindo drasticamente planos de contratação para cargos juniores e concentrando esforços em trabalhadores mais experientes.
As vagas de entrada estão desaparecendo
Os números chamam atenção.
Segundo o levantamento, a porcentagem de CEOs que pretendem reduzir cargos juniores nos próximos um ou dois anos saltou de 17% para 43% em apenas um ano.
Ao mesmo tempo, apenas 17% dos executivos disseram estar ampliando contratações focadas em profissionais iniciantes.
Em vez disso, empresas estão priorizando trabalhadores de nível intermediário. Cerca de 30% dos CEOs afirmaram que suas futuras contratações terão foco em cargos médios — três vezes mais do que no ano anterior.
A principal explicação para essa mudança é direta: inteligência artificial.
A IA está substituindo justamente as tarefas de iniciantes
Os sistemas atuais de IA são particularmente eficientes em atividades repetitivas, administrativas e operacionais — exatamente o tipo de trabalho normalmente executado por profissionais em início de carreira.
Isso inclui elaboração de relatórios simples, análise básica de dados, atendimento automatizado, organização de informações, produção de conteúdo inicial e tarefas rotineiras de escritório.
Em outras palavras: muitas empresas começaram a perceber que podem automatizar parte do trabalho que antes servia como porta de entrada para jovens profissionais.
Segundo o relatório, os CEOs com planos mais agressivos de adoção de IA também são os que mais enxergam um futuro com estruturas corporativas permanentemente menores.
A pesquisa descreve isso como o surgimento de um “modelo operacional aumentado por IA”, capaz de funcionar com menos pessoas distribuídas de maneira diferente dentro das empresas.
O problema é que nem os CEOs estão vendo grandes resultados
Existe uma ironia importante nesse movimento.
Apesar do entusiasmo em torno da inteligência artificial, a maioria das empresas ainda não conseguiu obter os ganhos de produtividade prometidos.
Mais da metade dos executivos entrevistados afirmou que ainda é cedo demais para medir se os investimentos em IA realmente estão gerando retorno significativo.
Apenas 27% disseram que os resultados atenderam ou superaram expectativas — uma queda relevante em comparação aos 38% registrados no ano anterior.
Além disso, quase um quarto das empresas relatou não ter percebido absolutamente nenhum impacto relevante em receitas.
Ou seja: muitas companhias já estão reduzindo vagas antes mesmo de provar que a IA realmente consegue substituir trabalhadores de maneira eficiente em larga escala.
Um pequeno grupo de empresas vê os jovens de outra forma
Curiosamente, a pesquisa identificou uma exceção interessante.
As empresas que efetivamente estão obtendo melhores resultados com inteligência artificial tendem a enxergar mais valor em trabalhadores iniciantes do que as companhias que ainda não conseguiram retorno concreto da tecnologia.
Segundo o relatório, existe um grupo “contrário à tendência” que acredita que a IA pode aumentar — e não reduzir — o valor dos profissionais em começo de carreira.
A lógica é relativamente simples: jovens trabalhadores podem aprender a operar junto com ferramentas de IA desde o início, tornando-se mais produtivos rapidamente.
Ainda assim, mesmo entre essas empresas, profissionais intermediários continuam sendo prioridade na maior parte dos casos.
O risco invisível: destruir a próxima geração de talentos
O maior problema dessa transformação talvez não seja imediato, mas estrutural.
Se empresas deixam de contratar profissionais iniciantes, elas também interrompem parte do processo natural de formação de talentos internos.
Historicamente, cargos juniores funcionam como etapas de aprendizado prático. É ali que trabalhadores desenvolvem experiência, entendimento operacional e habilidades que futuramente os transformam em profissionais de nível médio e sênior.
Sem essa base, surge uma pergunta preocupante: de onde virão os especialistas do futuro?
O próprio relatório alerta para esse risco. Cortes de pessoal acelerados demais, combinados com confiança excessiva em sistemas de IA ainda imaturos, podem criar vulnerabilidades operacionais importantes no longo prazo.
Além disso, reduzir oportunidades para jovens trabalhadores pode gerar consequências econômicas e sociais profundas para toda uma geração.
O mercado de trabalho já está mudando
A pesquisa também mostra uma tendência mais ampla: empresas estão contratando menos de maneira geral.
Cerca de 74% dos CEOs afirmaram que pretendem congelar ou reduzir o número total de funcionários — acima dos 67% registrados no ano anterior.
Os cortes mais agressivos estão acontecendo justamente em setores mais expostos à inteligência artificial, como tecnologia, mídia e telecomunicações.
O cenário ainda está longe de definitivo. A IA continua evoluindo, regulações podem mudar e muitos projetos corporativos ainda estão em fase experimental.
Mas uma coisa já começa a ficar clara: a inteligência artificial não está apenas transformando o trabalho. Ela pode estar alterando completamente a maneira como novas gerações entram no mercado profissional.