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Ciência

China cobre glaciares com mantas gigantes para frear o derretimento — a solução funciona, mas revela o tamanho real do problema climático

Testes com mantas geotêxteis brancas conseguiram reduzir de forma significativa o derretimento do gelo em áreas pontuais. O método, porém, é caro, limitado em escala e não ataca a causa central do aquecimento global.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Diante do avanço acelerado do aquecimento global, a China passou a testar uma estratégia que chama atenção pelo impacto visual e pela lógica simples: cobrir partes de glaciares com enormes mantas geotêxteis brancas para reduzir o derretimento durante os meses mais quentes do ano. Os resultados, ao menos localmente, são claros. O gelo protegido fica mais espesso e derrete mais devagar. Mas o experimento também escancara um dilema maior: a técnica funciona apenas em pequenas áreas e não resolve o problema estrutural por trás da perda de gelo no planeta.

Uma manta branca contra o calor

A experiência mais conhecida ocorreu no glaciar Dagu, na província de Sichuan. Em 2019, pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências cobriram cerca de 500 metros quadrados do glaciar com um manto branco durante o verão. A ideia era simples e pragmática: refletir parte da radiação solar e bloquear o calor direto, tentando “ganhar tempo” diante do aumento das temperaturas.

Após aproximadamente dois meses e meio, as mantas foram retiradas. O resultado chamou a atenção: a área protegida apresentava até um metro a mais de espessura de gelo em comparação com regiões vizinhas que ficaram expostas. Em outras palavras, o gelo coberto sobreviveu melhor ao pico do calor.

Como as mantas funcionam na prática

Cold Fix Inside China’s Audacious Effort To Save A Dying Glacier
© Wang Feiteng

As mantas usadas são feitas de geotêxteis brancos, materiais sintéticos projetados para resistir ao clima e refletir luz. O princípio físico por trás da técnica é o aumento do albedo — a capacidade de uma superfície refletir radiação solar. Quanto maior o albedo, menos energia é absorvida e convertida em calor.

Ao refletir parte significativa da luz do Sol e reduzir a transferência direta de calor para o gelo, as mantas desaceleram o processo de derretimento, especialmente durante o verão, quando a perda de massa dos glaciares é mais intensa.

Resultados expressivos, mas locais

Os números confirmam a eficácia pontual da técnica. No caso do glaciar Dagu, a taxa de derretimento caiu cerca de 34% entre agosto de 2020 e outubro de 2021. Em outros estudos e aplicações semelhantes, principalmente na Europa, reduções locais durante o verão chegaram a variar entre 50% e até 70%.

O problema é que esse benefício termina exatamente onde a manta acaba. Fora da área coberta, o gelo continua exposto ao calor, à radiação solar e às mudanças climáticas em curso. O método protege pontos específicos, não sistemas glaciais inteiros.

Por que não dá para escalar a solução

A própria lógica da técnica impõe limites quase intransponíveis. Estima-se que existam mais de 250 mil quilômetros quadrados de glaciares no planeta. Cobrir uma fração significativa dessa área exigiria uma operação gigantesca, com custos altíssimos, logística complexa, manutenção constante e reposição frequente do material.

As mantas precisam ser instaladas e removidas a cada temporada, sofrem desgaste com o vento e a neve e, se mal gerenciadas, podem se tornar resíduos ambientais. Mesmo que o derretimento local fosse reduzido em 50% ou 60%, o custo de uma proteção em escala global seria inviável.

Um país que já sente os efeitos do degelo

Gelo Salgado
© Unsplash – Tasha Marie

A China conhece bem o tamanho do problema. Desde 1960, o país já perdeu cerca de 26% de sua área glaciar. Mais de 7.000 pequenos glaciares desapareceram completamente nesse período. Regiões como as montanhas Qilian e o Planalto Tibetano enfrentam impactos diretos sobre as reservas de água doce, das quais dependem milhões de pessoas.

Além da escassez hídrica, o derretimento acelera riscos de deslizamentos, inundações repentinas e colapsos de barragens naturais formadas por gelo e detritos.

Uma solução de emergência, não uma resposta definitiva

Especialistas veem as mantas como uma ferramenta útil para situações específicas: proteger atrações turísticas, áreas críticas para o abastecimento de água ou pontos particularmente vulneráveis, onde ações imediatas podem reduzir danos no curto prazo.

A técnica surge ao lado de outras tentativas, como a produção de neve artificial e iniciativas científicas voltadas à criosfera, alinhadas a programas internacionais como o Ano Internacional para a Preservação dos Glaciares, em 2025, e o Decênio de Ação para as Ciências da Criosfera (2025–2034).

Ainda assim, o consenso é claro. As mantas podem comprar tempo, mas não substituem a necessidade central: reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa. Sem isso, o aquecimento global continuará pressionando o gelo do planeta — com ou sem cobertores gigantes.

 

[ Fonte: Clickpetroleoegas ]

 

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