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Ciência

A Antártida já perdeu gelo em massa quando o planeta esteve tão quente quanto hoje — e os sedimentos do fundo do oceano acabam de confirmar isso

Uma análise detalhada de sedimentos marinhos revela que a Antártida Ocidental sofreu colapsos repetidos durante períodos quentes do passado. O estudo mostra que o gelo respondeu de forma extrema a temperaturas semelhantes às atuais, reforçando os alertas sobre o futuro do nível do mar global.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A estabilidade da Capa de Gelo da Antártida Ocidental é um dos fatores mais decisivos para prever o aumento do nível do mar nas próximas décadas. Agora, um novo estudo científico adiciona um dado inquietante a esse cenário: durante períodos quentes do passado, semelhantes ao clima atual, essa região perdeu gelo de forma maciça e repetida. A evidência vem do fundo do oceano, registrada em sedimentos que funcionam como um arquivo natural da história climática do planeta.

A pesquisa, publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), analisou amostras coletadas no mar de Amundsen e indica que a vulnerabilidade observada hoje nos glaciares Thwaites e Pine Island não é uma exceção — é um padrão que já se repetiu em condições climáticas comparáveis às atuais.

O Plioceno como espelho do futuro

Antartica
© NASA

Os cientistas voltaram seu olhar para o Plioceno, um período ocorrido entre 5,33 e 2,58 milhões de anos atrás. Naquela época, a Terra era mais quente do que hoje, com temperaturas médias da superfície do mar entre 3 °C e 4 °C acima dos níveis atuais. Além disso, as concentrações de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera eram semelhantes — ou apenas ligeiramente superiores — às que medimos atualmente.

Esse contexto torna o Plioceno um laboratório natural para entender como grandes massas de gelo respondem ao aquecimento global. A principal conclusão do estudo é clara: durante esse período, a Capa de Gelo da Antártida Ocidental não permaneceu estável. Pelo contrário, recuou profundamente para o interior do continente em múltiplas ocasiões.

Sedimentos que contam uma história dinâmica

A evidência veio de um núcleo de sedimentos extraído no local U1532, no talude continental do mar de Amundsen. Essas camadas de lama, areia e fragmentos de rocha permitem reconstruir, com grande precisão, a dinâmica do gelo ao longo de milhões de anos.

Os pesquisadores identificaram pelo menos cinco grandes episódios de retrocesso dos glaciares durante o Plioceno. Em períodos mais quentes, aparecem camadas de sedimentos esverdeados, ricos em microalgas e restos biológicos, indicando águas abertas, alta produtividade marinha e temperaturas elevadas. Já nos intervalos frios, predominam argilas cinzentas, laminadas e pobres em vida, sinal de que o gelo voltou a avançar sobre a plataforma continental.

Esse padrão mostra que o gelo avançava e recuava de forma rítmica, reagindo diretamente às oscilações climáticas — um comportamento que reforça sua sensibilidade extrema ao aquecimento.

Rastros químicos vindos do interior do continente

Um dos aspectos mais impressionantes do estudo foi a identificação da origem dos sedimentos. Por meio da análise de isótopos de estrôncio, neodímio e chumbo, os cientistas conseguiram “etiquetar” quimicamente cada partícula e rastrear sua procedência.

O resultado revelou que parte do material vinha das montanhas Ellsworth–Whitmore, no interior profundo da Antártida, a mais de 500 quilômetros da costa. Isso só seria possível se o gelo tivesse recuado drasticamente, permitindo que icebergs arrancassem rochas dessas regiões remotas e as transportassem até o oceano.

Curiosamente, esses sedimentos aparecem com mais força no início dos períodos frios. A explicação é que, ao voltar a avançar, o gelo empurrava para o fundo do mar os materiais acumulados anteriormente na plataforma continental, onde acabaram preservados no registro sedimentar.

Como os cientistas dataram esses eventos

Cientistas Descobrem Dezenas De Vazamentos De Metano Sob O Gelo Da Antártida
© X-@metsul

Para estabelecer quando esses episódios ocorreram, o estudo combinou geoquímica com paleomagnetismo. Minerais magnéticos presentes nos sedimentos registram a orientação do campo magnético da Terra no momento em que se depositam. Como o campo magnético do planeta já inverteu seus polos diversas vezes ao longo da história, essas inversões funcionam como marcadores temporais.

Ao comparar essas assinaturas com o registro global conhecido, os pesquisadores conseguiram datar com precisão as camadas e confirmar que os grandes recuos ocorreram justamente durante os intervalos mais quentes do Plioceno. Modelos computacionais da dinâmica da camada de gelo reforçaram essa interpretação.

O que isso significa para o nível do mar

As conclusões apontam para um risco concreto. A Antártida Ocidental reage de forma drástica ao aquecimento do oceano, especialmente porque canais submarinos profundos funcionam como verdadeiras “estradas” por onde águas quentes alcançam a base dos glaciares Thwaites e Pine Island.

Uma vez iniciado, esse processo pode se tornar irreversível, levando a perdas contínuas de gelo independentemente de futuras reduções de temperatura. O impacto potencial é global: o colapso parcial ou total dessa região poderia elevar o nível do mar em vários metros.

O paralelo com o presente é o ponto mais alarmante. O estudo mostra que, no passado, colapsos semelhantes ocorreram em condições muito próximas às atuais. Em outras palavras, a história registrada no fundo do oceano sugere que o planeta pode estar perigosamente próximo — ou já ter cruzado — um limiar crítico para um novo episódio de derretimento em massa.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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