Imagine descobrir que a cidade onde você mora está afundando lentamente, mesmo sem terremotos ou grandes desastres naturais. Esse fenômeno, praticamente invisível no cotidiano, já acontece em importantes centros urbanos. Uma pesquisa internacional publicada em outubro de 2026 utilizou dados de satélites para medir o movimento do solo em centenas de cidades. Os resultados revelam diferenças impressionantes e mostram como a retirada de água subterrânea pode comprometer edifícios, ruas e sistemas de drenagem.
Satélites revelam que centenas de cidades estão afundando

O estudo, publicado em 12 de outubro na revista científica Nature Cities, analisou o comportamento do terreno em 465 cidades de 107 países.
Todas as localidades avaliadas possuem mais de um milhão de habitantes.
Os pesquisadores utilizaram informações coletadas entre 2014 e 2023 por satélites equipados com radares capazes de detectar pequenas alterações na superfície terrestre.
A tecnologia, conhecida como interferometria de radar de abertura sintética (InSAR), permite identificar deslocamentos de poucos milímetros.
Na pesquisa original publicada na Nature Cities, os cientistas explicam que o fenômeno é especialmente intenso em determinadas regiões da Ásia e da América do Norte.
O afundamento gradual do terreno recebe o nome de subsidência.
Embora possa ocorrer naturalmente, também está relacionado a atividades humanas, especialmente à exploração de recursos subterrâneos.
Cidade do México afunda até 21 centímetros por ano

Um dos resultados mais impressionantes foi registrado na Cidade do México.
Em determinadas áreas da capital mexicana, o solo está afundando aproximadamente 217 milímetros por ano, o equivalente a 21,7 centímetros.
Isso não significa que toda a cidade esteja descendo nessa velocidade.
Considerando o conjunto da área urbana, a taxa mediana identificada foi de aproximadamente oito milímetros anuais.
A diferença mostra como o fenômeno pode variar entre bairros relativamente próximos.
O problema está relacionado à história geológica da capital mexicana.
Grande parte da cidade foi construída sobre antigos lagos, cujos sedimentos apresentam características que favorecem a compactação.
A retirada intensa de água subterrânea contribui para acelerar esse processo.
Em maio de 2026, a NASA divulgou imagens do satélite NISAR mostrando regiões da capital mexicana que apresentavam afundamento superior a dois centímetros por mês.
Essas medições reforçam a necessidade de acompanhar a movimentação do terreno, especialmente em áreas densamente povoadas.
Quais cidades apresentam os maiores riscos?
A pesquisa identificou taxas particularmente elevadas em cidades asiáticas.
Medan, na Indonésia, apresentou afundamento mediano de aproximadamente 33 milímetros por ano.
Bandung, também na Indonésia, registrou cerca de 22 milímetros anuais.
Já Isfahan, no Irã, apresentou uma taxa mediana de 11 milímetros por ano.
No México, a cidade de Torreón também chamou atenção, com aproximadamente 17 milímetros de afundamento anual.
Entretanto, nem todas as grandes metrópoles apresentam deslocamentos significativos.
Boston, Nova York, Londres, Pequim, Tóquio, Seul, Sydney, Montevidéu e Nápoles registraram movimentos relativamente pequenos, entre 0,1 e 1,9 milímetro por ano, considerando tanto afundamento quanto elevação.
Segundo o comunicado científico divulgado pelo grupo editorial Nature, os resultados ajudam a identificar regiões onde medidas preventivas podem ser mais urgentes.
Por que o solo das cidades está cedendo?
Uma das principais causas é a retirada excessiva de água dos aquíferos subterrâneos.
Esses reservatórios naturais ocupam espaços entre partículas de sedimentos e formações rochosas.
Quando grandes volumes de água são extraídos, determinados materiais podem se compactar, provocando o rebaixamento da superfície.
O fenômeno também pode estar associado à mineração, à extração de petróleo e gás e a processos geológicos naturais.
O crescimento urbano pode aumentar a pressão sobre os recursos subterrâneos, especialmente em regiões que dependem de poços para abastecimento.
Em alguns casos, a compactação do terreno é praticamente irreversível.
Por isso, reduzir a exploração excessiva de aquíferos é uma das estratégias mais importantes para controlar o problema.
O que acontece quando uma cidade começa a afundar?
Os efeitos podem surgir gradualmente.
Edifícios podem apresentar rachaduras, tubulações podem sofrer deformações e sistemas de drenagem podem perder eficiência.
Em regiões costeiras, existe uma preocupação adicional.
Quando o terreno afunda enquanto o nível do mar sobe, o risco de inundações aumenta.
Isso significa que determinadas cidades podem enfrentar consequências mais graves das mudanças climáticas do que aquelas previstas apenas pela elevação dos oceanos.
No Brasil, onde diversas capitais estão próximas ao litoral, o fenômeno reforça a importância do monitoramento geológico e da gestão dos recursos hídricos.
Entretanto, o estudo não permite afirmar que todas as cidades brasileiras estejam afundando na mesma velocidade.
É possível impedir que as cidades continuem afundando?
Os pesquisadores identificaram sinais de desaceleração do fenômeno em algumas regiões do Leste e Sudeste Asiático.
Isso sugere que mudanças na gestão da água subterrânea podem contribuir para reduzir determinados processos de subsidência.
Entretanto, outras áreas continuam apresentando aceleração.
O estudo também possui limitações, incluindo diferenças na disponibilidade de estações terrestres utilizadas para verificar as medições.
Os cientistas defendem a continuidade do monitoramento por satélite para identificar tendências e orientar intervenções.
A descoberta mostra que o risco urbano nem sempre está relacionado a eventos repentinos.
Em algumas cidades, uma transformação silenciosa acontece poucos milímetros abaixo dos nossos pés, ano após ano.