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Ciência

Cientistas acreditam ter resolvido um dos maiores desafios da fertilização in vitro — e a resposta pode estar em “rejuvenescer” os óvulos

Um estudo experimental indica que a reposição de uma única proteína pode reduzir drasticamente erros genéticos em óvulos mais velhos. A descoberta pode ampliar a eficácia da fertilização in vitro em mulheres acima dos 40 anos e mudar o futuro dos tratamentos de fertilidade.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A fertilização in vitro (FIV) transformou a medicina reprodutiva, mas ainda enfrenta um obstáculo difícil de contornar: a queda acentuada nas taxas de sucesso à medida que a idade da mulher avança. Agora, pesquisadores acreditam ter dado um passo decisivo para enfrentar esse problema. Em um estudo preliminar, cientistas conseguiram reduzir um dos principais defeitos genéticos que comprometem óvulos de mulheres mais velhas — e tudo isso ao restaurar os níveis de uma única proteína.

Se os resultados forem confirmados em estudos maiores, a descoberta pode estender significativamente o período em que a FIV permanece uma opção viável, tornando o processo menos arriscado e mais previsível para muitas famílias.

O problema silencioso que limita a FIV

Para que um embrião seja viável, ele precisa conter 46 cromossomos — 23 herdados do óvulo e 23 do espermatozoide. Para isso acontecer, essas células passam por um tipo especial de divisão celular chamado meiose, no qual o número de cromossomos é reduzido pela metade.

O problema é que esse processo nem sempre ocorre perfeitamente. Uma falha comum é a chamada aneuploidia, quando o óvulo acaba com cromossomos a mais ou a menos. Esse tipo de erro genético é uma das principais causas de falha da fertilização in vitro, abortos espontâneos e dificuldades para engravidar.

Embora a aneuploidia possa ocorrer em qualquer idade, ela se torna muito mais frequente com o envelhecimento. É por isso que a FIV tem taxas de sucesso significativamente menores em mulheres acima dos 40 anos.

Uma proteína-chave que se perde com o tempo

Pesquisas anteriores já haviam apontado que o envelhecimento dos óvulos está ligado à separação incorreta de cromossomos idênticos durante a meiose. A equipe liderada por Melina Schuh, diretora do Instituto Max Planck de Ciências Multidisciplinares, na Alemanha, identificou um dos principais responsáveis por evitar esse erro: uma proteína chamada Shugoshin 1, ou SGO1.

Essa proteína atua como uma espécie de “cola molecular”, mantendo as cromátides — as cópias dos cromossomos — unidas até o momento exato da separação. O problema é que, com o passar dos anos, os níveis de SGO1 nos óvulos diminuem, aumentando o risco de erros.

“O mais bonito é que identificamos uma única proteína que cai com a idade, restauramos seus níveis aos de um óvulo jovem e vimos um efeito enorme”, afirmou Schuh em entrevista ao The Guardian.

O experimento que mudou o cenário

No novo estudo, divulgado este mês no repositório científico bioRxiv, os pesquisadores testaram a hipótese de que repor essa proteína poderia reduzir falhas genéticas. Para isso, eles injetaram microdoses de Shugoshin 1 em óvulos de camundongos e em óvulos humanos doados por pacientes de uma clínica de fertilidade.

O resultado foi expressivo. Entre os óvulos humanos que não receberam o tratamento, mais da metade apresentou erros na separação dos cromossomos. Já entre aqueles que receberam a proteína, esse número caiu para 29%. Em outras palavras, a simples reposição da SGO1 reduziu drasticamente um dos defeitos mais comuns associados à idade.

Os autores afirmam que os dados indicam que a suplementação da proteína pode preservar a coesão cromossômica em óvulos envelhecidos — um passo crucial para melhorar a qualidade genética dessas células.

Ainda é cedo, mas o potencial é enorme

Apesar do entusiasmo, os próprios pesquisadores ressaltam que o trabalho ainda está em estágio inicial. O estudo não passou por revisão por pares, etapa fundamental do processo científico, e os resultados ainda precisam ser apresentados e debatidos em conferências especializadas, como a British Fertility Conference, que acontece esta semana em Edimburgo.

Além disso, será necessário demonstrar que a técnica não apenas reduz erros cromossômicos, mas também melhora efetivamente as taxas de gravidez e nascimento, além de ser segura e confiável em larga escala. Os cientistas também deixam claro que o método não tornaria a FIV viável para mulheres que já entraram na menopausa.

Um avanço com impacto real na clínica

Mesmo com essas ressalvas, especialistas veem o estudo como um avanço promissor. A fertilidade em idades mais avançadas é hoje um dos maiores desafios da medicina reprodutiva, já que muitas mulheres buscam engravidar mais tarde, por razões pessoais, profissionais ou sociais.

“Esse trabalho é realmente importante, porque precisamos de abordagens que funcionem para óvulos mais velhos — e é exatamente nessa fase que a maioria das mulheres procura tratamento”, afirmou Güneş Taylor, pesquisadora da Universidade de Edimburgo que não participou do estudo.

Para levar a técnica adiante, Schuh e seus colegas fundaram a startup Ovo Labs, com o objetivo de desenvolver e, no futuro, comercializar a abordagem. Se tudo correr como esperado, a descoberta pode transformar a fertilização in vitro de um procedimento incerto em uma opção mais previsível — e dar a muitos óvulos envelhecidos uma segunda chance.

 

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