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Ciência

Comprovado: o álcool afeta mais as mulheres — e a ciência já sabe explicar por quê

Com a mesma quantidade de bebida, mulheres costumam sentir os efeitos do álcool mais rápido e de forma mais intensa do que homens. Pesquisas mostram que isso não é apenas uma questão de peso ou “tolerância”, mas envolve diferenças no metabolismo, na composição corporal, nos hormônios e no funcionamento do cérebro — fatores que também aumentam o risco de dependência.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A filósofa francesa Simone de Beauvoir brincava que duas taças já eram suficientes para deixá-la tonta, muito antes de qualquer debate existencialista engrenar. Décadas depois, a ciência confirmou que essa percepção tinha base biológica. O corpo feminino processa o álcool de maneira diferente — e, em muitos casos, mais intensa — do que o masculino, mesmo quando a dose ingerida é a mesma.

O que acontece no corpo logo após o primeiro gole

álcool
© FreePik

O álcool começa a agir quase imediatamente. Antes mesmo de chegar ao estômago, as papilas gustativas enviam sinais ao cérebro, provocando mudanças sutis na frequência cardíaca, no fluxo sanguíneo e na química cerebral. É como se o organismo se preparasse para o impacto que está por vir.

Após a ingestão, uma pequena parte do álcool é absorvida no estômago, mas a maior parcela segue para o intestino delgado, de onde entra rapidamente na corrente sanguínea. Nesse caminho, uma fração é quebrada no estômago e no fígado por uma enzima chamada álcool desidrogenase (ADH), em um processo conhecido como “metabolismo de primeira passagem”.

Um estudo clássico dos anos 1990 mostrou que, mesmo ajustando a quantidade de bebida ao peso corporal, mulheres tendem a metabolizar menos álcool nessa fase inicial. O resultado é simples: mais álcool chega ao sangue, elevando a concentração alcoólica e intensificando os efeitos.

Peso corporal explica tudo? Nem tanto

Há consenso entre cientistas de que, em média, as mulheres sentem os efeitos do álcool mais cedo. A divergência está nas causas. Para alguns especialistas, o peso corporal é o fator dominante. Corpos menores teriam “compartimentos” menores — como cérebro e órgãos — onde o etanol se distribui, concentrando-se mais rapidamente.

Outros pesquisadores, porém, argumentam que o peso não explica tudo. Duas pessoas com o mesmo peso, mas com composições corporais diferentes, podem reagir de forma distinta à mesma dose de álcool.

Composição corporal, enzimas e cérebro entram em cena

Em geral, mulheres têm maior proporção de gordura corporal e menos água do que homens. Como o álcool se dissolve melhor em água do que em gordura, isso faz com que ele fique mais concentrado no sangue feminino.

Além disso, homens costumam apresentar maior quantidade da enzima ADH no estômago, o que acelera a quebra do álcool logo no início do processo. Nas mulheres, essa “filtragem” inicial é menos eficiente, permitindo que mais etanol alcance o cérebro.

Essas diferenças não param por aí. Pesquisas conduzidas por especialistas em neurobiologia do consumo de álcool, como Edward Scotts, da Universidade Estadual da Luisiana, indicam que o cérebro feminino também reage de forma distinta às substâncias psicoativas.

Por que o álcool pode ser mais viciante para mulheres

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© Andrey Zvyagintsev – Unsplash

Quando o álcool chega ao cérebro, muitas mulheres apresentam um fenômeno conhecido como telescoping: a progressão do consumo ocasional para a dependência acontece mais rapidamente do que nos homens. Estudos mostram que elas tendem a desenvolver problemas relacionados ao álcool em menos tempo, mesmo com um histórico de consumo mais curto e menor quantidade total ao longo da vida.

Os hormônios desempenham um papel central nesse processo. O estradiol, principal hormônio produzido pelos ovários, intensifica a liberação de dopamina — neurotransmissor ligado ao prazer e ao sistema de recompensa. Como o álcool também aumenta indiretamente a dopamina, o efeito combinado pode tornar a experiência mais prazerosa e, ao mesmo tempo, mais propensa à dependência.

Durante a ovulação, por exemplo, esse efeito pode ser ainda mais forte, aumentando a probabilidade de consumo elevado.

Não é “fraqueza”, é biologia

Essas descobertas ajudam a desmontar a ideia de que mulheres seriam “bebedoras mais fracas”. A realidade é bem mais complexa. Metabolismo, composição corporal, enzimas, hormônios e circuitos cerebrais atuam juntos, desde o primeiro gole, moldando a forma como o álcool age no organismo feminino.

Entender essas diferenças é fundamental não apenas para a ciência, mas também para políticas de saúde pública, campanhas de prevenção e abordagens de tratamento mais adequadas. Afinal, quando o assunto é álcool, igualdade de doses não significa igualdade de efeitos.

 

[ Fonte: DW ]

 

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