Quando a gravidez vem com saliva em excesso
A maioria das pessoas associa o início da gestação a enjoos, cansaço e sensibilidade. Mas, por volta da 10ª semana, Talita percebeu algo que nunca tinha ouvido falar: uma produção tão intensa de saliva que ela precisava usar toalhas ou até copos descartáveis para cuspir o tempo todo.
O quadro veio acompanhado de hiperêmese gravídica, uma condição caracterizada por náuseas e vômitos persistentes. A hiperêmese dificulta engolir saliva, o que amplifica ainda mais o sintoma da sialorreia. “À noite é pior. Não posso usar chiclete, então fico com uma toalha na boca para não acordar molhada”, contou à Crescer.
Sem diagnóstico claro e sem acolhimento imediato, ela passou a buscar diversos profissionais para entender o que estava acontecendo com seu corpo.
A luta por acolhimento — e a descoberta de outras mulheres

Assim como muitas gestantes, Talita não sabia que o ptialismo gravídico existia. E a surpresa foi ainda maior quando descobriu que muitos médicos também não explicam ou sequer reconhecem a condição. Foi isso que a motivou a gravar um vídeo desabafando sobre a situação.
O que era para ser um relato íntimo acabou virando rede de apoio: milhares de mulheres disseram ter vivido o mesmo quadro em algum momento da gestação. “Eu achava que era só comigo. Fiquei chocada com a quantidade de mulheres que passaram por isso”, afirmou.
Hoje, Talita está com 22 semanas, livre da hiperêmese, mas ainda convivendo com a sialorreia — e se preparando para a chegada de Enzo, prevista para março de 2026.
O que é o ptialismo gravídico?
Segundo a ginecologista e obstetra Fernanda Torino Reginato Rizzo, a sialorreia na gestação corresponde ao aumento acentuado da produção de saliva. Em casos extremos, pode chegar a 2 litros por dia. A condição acontece quando há uma falha nos mecanismos que eliminam a saliva da boca.
A causa exata ainda é desconhecida, mas existem três teorias principais:
- alterações hormonais, especialmente aumento de estrogênio e beta hCG
- fatores psicológicos, como ansiedade
- fatores neurais ligados à resposta do sistema nervoso
Apesar do incômodo, trata-se de um quadro benigno, que costuma melhorar ao longo da gravidez e, na maioria dos casos, termina logo após o parto.
Sintomas que vão além do excesso de saliva
A sialorreia geralmente vem acompanhada de:
- náusea
- êmese (vômitos)
- hiperêmese gravídica
- dificuldade de engolir a saliva
Em casos raros, pode haver predisposição genética. Quando o quadro é mais severo, a gestante pode precisar de acompanhamento médico contínuo para evitar desidratação, perda de nutrientes e impacto psicológico.
Como aliviar a sialorreia durante a gestação?
Embora não exista um medicamento específico e comprovadamente seguro para tratar a sialorreia em gestantes, especialistas recomendam alguns cuidados que podem aliviar o sintoma:
Mudanças alimentares
- evitar leite e derivados
- evitar frituras e alimentos pesados
- reduzir consumo de cítricos e comidas muito ácidas ou condimentadas
Estratégias práticas
- mascar chiclete sem açúcar
- usar balas de menta ou limão sem açúcar
- consumir gengibre (em chá ou pastilhas)
- fazer sessões de acupuntura
Quando procurar ajuda médica
Se a sialorreia vier acompanhada de hiperêmese intensa, pode ser necessário internação para hidratação, reposição de eletrólitos e controle dos vômitos.
Quando informação vira acolhimento
O vídeo de Talita viralizou porque tocou em algo que muitas gestantes vivem, mas quase ninguém discute. A sialorreia é rara, pouco divulgada e frequentemente negligenciada no atendimento médico — o que reforça a importância de falar sobre ela.
Para quem enfrenta o sintoma, saber que não está sozinha muda tudo. E, para quem nunca ouviu falar, entender a sialorreia na gravidez ajuda a reconhecer sinais, acolher outras mulheres e, claro, cobrar mais informação e cuidado por parte dos profissionais de saúde.
No fim, a lição é simples: sintomas raros também merecem atenção. Porque a experiência da gravidez vai muito além do que os manuais costumam contar — e cada mulher merece ser ouvida, compreendida e cuidada.
[Fonte: Correio Braziliense]