O oceano Pacífico está passando por uma transformação que pode afetar o clima de praticamente todo o planeta. As temperaturas da superfície do mar estão subindo rapidamente, e os modelos meteorológicos apontam para um fenômeno de intensidade excepcional nos próximos meses. A Organização Meteorológica Mundial já emitiu alertas sobre possíveis consequências para a agricultura, o abastecimento de água e a ocorrência de eventos extremos. No Brasil, os efeitos também podem ser significativos.
Um Super El Niño pode estar se formando no Pacífico

O fenômeno responsável pela preocupação é o El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico equatorial, principalmente nas regiões central e oriental.
Embora seja um processo natural e recorrente, sua intensidade varia consideravelmente. Em determinados períodos, o aquecimento atinge níveis tão elevados que os especialistas passam a utilizar informalmente a expressão Super El Niño.
Em 2026, as condições observadas chamaram atenção pela rapidez do aquecimento.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o fenômeno já está estabelecido e deve continuar ganhando força até o final do ano.
A agência internacional considera provável que o episódio alcance intensidade muito forte, com impactos sobre as temperaturas e os regimes de precipitação em diferentes continentes.
A possibilidade de um evento excepcional também aparece nas análises da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).
O histórico de monitoramento utilizado pela agência remonta a 1950, permitindo comparar as condições atuais com alguns dos episódios mais intensos já registrados.
Entre os principais antecedentes estão os eventos de 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016.
Entretanto, os cientistas ressaltam que as projeções ainda apresentam incertezas. A intensidade definitiva somente poderá ser determinada conforme as temperaturas oceânicas e a circulação atmosférica evoluírem.
O que dizem as previsões mais recentes?

Em seu comunicado oficial de setembro de 2026, a OMM informou que existe uma probabilidade próxima de 100% de o El Niño persistir até fevereiro de 2027.
O fenômeno deve continuar se intensificando nos próximos meses, com possibilidade de atingir seu pico perto do final de 2026.
Os dados da NOAA divulgados em outubro reforçam esse cenário.
O índice Niño 3.4, utilizado para acompanhar o aquecimento do Pacífico equatorial, alcançou aproximadamente 2,1 °C acima da média em uma das avaliações recentes.
Outras áreas do oceano apresentaram anomalias ainda mais elevadas.
A agência também considera elevada a probabilidade de manutenção de um El Niño forte ou muito forte durante o início de 2027.
Apesar disso, a classificação de um evento histórico depende de médias calculadas ao longo de vários meses, e não apenas de temperaturas registradas isoladamente.
Por isso, ainda não é possível afirmar que o episódio será o mais intenso desde 1950.
O que os dados mostram é que o planeta está diante de um evento com potencial para modificar significativamente a circulação atmosférica global.
Como o fenômeno pode afetar o clima brasileiro?
O Brasil está entre os países que podem experimentar mudanças importantes durante episódios intensos de El Niño.
Historicamente, o fenômeno costuma favorecer chuvas acima da média em partes da Região Sul, especialmente durante determinadas épocas do ano.
Em contrapartida, áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar redução das precipitações e aumento das temperaturas.
Essas alterações não acontecem de maneira uniforme e dependem da interação com outros sistemas meteorológicos.
No Sul, períodos de chuva intensa podem elevar o risco de enchentes, deslizamentos e prejuízos à infraestrutura.
Na Amazônia, condições mais secas e quentes podem contribuir para o aumento do risco de incêndios florestais, especialmente quando combinadas com desmatamento e degradação ambiental.
O Centro-Oeste e o Sudeste também podem registrar mudanças nos padrões de temperatura e chuva, embora os efeitos sejam mais variáveis.
É importante destacar que o El Niño não determina sozinho o comportamento do clima.
O aquecimento global, a temperatura do Atlântico e outros fenômenos atmosféricos influenciam a intensidade e a distribuição dos impactos.
Agricultura e produção de alimentos estão entre as maiores preocupações
Um dos principais alertas envolve as consequências para a produção agrícola.
Mudanças na distribuição das chuvas podem comprometer o desenvolvimento das lavouras, dificultar o planejamento do plantio e aumentar os custos de irrigação.
No Brasil, culturas como soja, milho, arroz e café podem ser afetadas de maneiras diferentes, dependendo da região e do período de cultivo.
O excesso de precipitação pode prejudicar a colheita e favorecer doenças nas plantações. Já a falta de água pode reduzir a produtividade e comprometer o desenvolvimento das plantas.
Esses problemas também podem afetar a pecuária, especialmente em regiões onde a disponibilidade de pastagens depende das chuvas sazonais.
Em escala internacional, alterações na produção de alimentos podem pressionar cadeias de abastecimento e contribuir para oscilações nos preços.
Entretanto, não é possível prever perdas agrícolas específicas apenas com base na intensidade do El Niño.
As consequências dependem de fatores como características do solo, infraestrutura de irrigação, calendário agrícola e capacidade de adaptação dos produtores.
Por que os efeitos podem continuar durante 2027?
Mesmo que o aquecimento do Pacífico comece a diminuir após seu período de maior intensidade, os impactos atmosféricos podem persistir por vários meses.
Isso acontece porque o oceano armazena grandes quantidades de energia térmica, influenciando a circulação dos ventos e a formação de chuvas.
Além disso, o El Niño de 2026 ocorre em um contexto de temperaturas globais elevadas, associado ao aquecimento provocado pelas emissões de gases de efeito estufa.
A combinação pode aumentar a probabilidade de determinados extremos climáticos, embora não seja possível atribuir antecipadamente cada seca, enchente ou onda de calor ao fenômeno.
A NOAA acompanha continuamente a evolução do El Niño, utilizando observações oceânicas, satélites e modelos de previsão.
Para governos e produtores rurais, essas informações permitem antecipar medidas de prevenção, adaptar calendários agrícolas e melhorar a gestão dos recursos hídricos.
O principal alerta dos cientistas não é que uma catástrofe esteja garantida, mas que existe uma janela de oportunidade para preparação.
Se as projeções se confirmarem, o El Niño de 2026 poderá entrar para a história como um dos episódios mais intensos das últimas décadas, com consequências que ultrapassarão o Pacífico e poderão ser sentidas no Brasil durante boa parte de 2027.