A insuficiência cardíaca continua sendo uma das principais causas de morte no mundo e afeta milhões de pessoas. Em muitos casos, ela surge após um infarto, quando parte do músculo cardíaco morre por falta de oxigênio e é substituída por tecido cicatricial incapaz de se contrair.
Até hoje, os tratamentos disponíveis conseguem apenas desacelerar a progressão da doença. Quando o quadro se torna grave, as alternativas costumam se limitar ao transplante cardíaco ou à implantação de dispositivos mecânicos para auxiliar o bombeamento do sangue.
Agora, uma equipe de pesquisadores da Alemanha apresentou uma abordagem diferente: reconstruir o músculo perdido utilizando um adesivo cardíaco vivo cultivado em laboratório.
Uma nova camada de músculo para ajudar o coração

O estudo, publicado na revista científica New England Journal of Medicine, foi liderado pelo University Medical Center Göttingen (UMG) em parceria com o University Hospital of Schleswig-Holstein (UKSH).
A técnica consiste na criação de um tecido muscular cardíaco artificial que é implantado diretamente sobre a região danificada do coração.
Esse tecido é produzido a partir de células-tronco combinadas com colágeno, uma proteína essencial para a estrutura dos tecidos humanos. Depois de implantado, o material se integra ao órgão e forma uma nova camada muscular capaz de contribuir para a contração cardíaca.
Segundo os pesquisadores, o objetivo não é substituir o coração nem utilizar equipamentos mecânicos, mas reforçar sua capacidade natural de bombeamento.
Como o adesivo cardíaco é produzido
O processo começa com a coleta de células-tronco obtidas do sangue do próprio paciente.
Em laboratório, essas células são transformadas em cardiomiócitos — as células responsáveis pela contração do coração — e também em células de tecido conjuntivo, que fornecem sustentação estrutural.
As células são então misturadas ao colágeno para formar uma espécie de lâmina viva de tecido cardíaco.
O resultado é um adesivo com cerca de três a quatro milímetros de espessura que apresenta atividade contrátil própria. Em outras palavras, ele é capaz de pulsar de forma semelhante ao músculo cardíaco natural.
Cada unidade é produzida em ambiente altamente controlado, com apoio da empresa de biotecnologia Repairon GmbH.
Resultados promissores em pacientes com doença avançada

O ensaio clínico, denominado BioVAT-HF-DZHK20, teve início em 2021 e incluiu 20 pacientes com insuficiência cardíaca grave.
Todos apresentavam uma fração de ejeção inferior a 35%, indicador que mede a quantidade de sangue bombeada pelo coração a cada batimento. Em pessoas saudáveis, esse índice normalmente varia entre 55% e 70%.
Na primeira fase da pesquisa, os cientistas determinaram a dose máxima considerada segura para o procedimento: aproximadamente 800 milhões de células cardíacas por adesivo.
Na etapa seguinte, 16 pacientes receberam o tratamento completo.
Após três meses, exames de imagem mostraram que a parede cardíaca havia se tornado mais espessa na região tratada. Além disso, os pesquisadores observaram melhora na capacidade de bombeamento do coração.
O acompanhamento realizado por mais de quatro anos indicou que os benefícios permaneceram estáveis ao longo do tempo.
O paciente que voltou a recuperar parte da rotina
Entre os participantes do estudo está Steffen Eyring, de 58 anos.
Após sofrer um infarto em 2020, seu coração passou a funcionar com apenas 18% a 20% da capacidade normal. Mesmo utilizando medicamentos e um desfibrilador implantado, sua condição continuava se deteriorando.
As caminhadas que costumava fazer com a esposa tornaram-se cada vez mais difíceis. A fadiga e a falta de ar limitavam suas atividades diárias.
Ao conhecer o estudo por meio de uma reportagem na televisão, Steffen decidiu se candidatar como voluntário.
A cirurgia foi realizada em junho de 2024. Desde então, sua função cardíaca se estabilizou e apresentou uma leve melhora.
Segundo sua esposa, ele voltou a participar mais ativamente das atividades cotidianas e passou a ter mais dias bons do que ruins.
O que ainda falta antes da aprovação definitiva
Os resultados foram recebidos com entusiasmo pela comunidade científica, mas os pesquisadores destacam que a tecnologia ainda está em fase experimental.
Embora o estudo tenha demonstrado segurança e sinais consistentes de eficácia, serão necessários ensaios clínicos maiores para confirmar os benefícios observados.
Novas pesquisas já estão sendo planejadas em hospitais da Europa e dos Estados Unidos, sob coordenação do German Center for Cardiovascular Research (DZHK) e do UMG.
Se os resultados forem confirmados em populações maiores, o adesivo cardíaco poderá abrir uma nova era na medicina regenerativa. Em vez de apenas controlar os sintomas da insuficiência cardíaca, médicos poderão reconstruir parte do músculo perdido, oferecendo uma alternativa inédita para pacientes que atualmente possuem poucas opções de tratamento.
[ Fonte: Infobae ]