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Ciência

Cientistas criam um “Google Earth do cérebro” que mapeia o desenvolvimento neural do nascimento à vida adulta

Pesquisadores da Universidade de Oslo lançaram um atlas digital em 4D que permite acompanhar o crescimento do cérebro etapa por etapa. A ferramenta interativa promete revolucionar o estudo de transtornos neurológicos ao mostrar, com precisão inédita, como o sistema nervoso se organiza ao longo do tempo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Entender como o cérebro se forma e se transforma ao longo da vida é um dos maiores desafios da ciência moderna. Agora, um grupo de pesquisadores da Universidade de Oslo deu um passo decisivo nessa direção. Eles desenvolveram um atlas digital capaz de acompanhar o desenvolvimento cerebral desde os primeiros dias após o nascimento até a fase adulta — uma espécie de mapa interativo que permite explorar o cérebro como se fosse uma plataforma de navegação.

Um atlas em 4D para explorar o cérebro

A barreira invisível recém-descoberta que pode mudar o que sabemos sobre o cérebro
© https://x.com/ShiningScience/

A ferramenta, chamada DeMBA, foi apresentada em estudo publicado na revista Nature Communications. O atlas permite acompanhar o desenvolvimento do cérebro de camundongos do quarto dia após o nascimento até o 56º dia de vida, cobrindo 53 estágios distintos de crescimento.

Na prática, o sistema funciona como um mapa digital. O usuário pode girar o cérebro em diferentes ângulos, ampliar regiões específicas e avançar pelas fases do desenvolvimento como se estivesse assistindo a um filme em câmera acelerada.

Heidi Kleven, pesquisadora do Departamento de Medicina Molecular da Universidade de Oslo e integrante do projeto, compara a experiência a usar o Google Earth — mas dentro do cérebro. Segundo ela, a ferramenta permite observar tanto a estrutura quanto aspectos funcionais do sistema nervoso ao longo do tempo.

“O cérebro é um pouco como um universo. Ainda há tanto a descobrir quanto já conhecemos”, afirmou Kleven.

Por que usar cérebros de camundongos?

O modelo animal não foi escolhido por acaso. O cérebro de camundongos compartilha características fundamentais com o cérebro humano, especialmente na organização básica de seus sistemas e circuitos neurais.

Embora seja menor e tenha superfície lisa — diferente do cérebro humano, que possui dobras que ampliam sua área externa —, o cérebro do camundongo oferece uma base sólida para compreender princípios gerais de funcionamento neural.

Nos humanos, o desenvolvimento cerebral começa por volta da quarta semana de gestação e pode se estender até cerca dos 25 anos de idade. No caso dos camundongos, esse processo ocorre em um período muito mais curto. O DeMBA acompanha essa trajetória desde os primeiros dias pós-nascimento até a maturidade, permitindo analisar mudanças estruturais e reorganizações funcionais com alto nível de detalhe.

Uma máquina do tempo para estudar transtornos

O potencial do atlas vai além da visualização impressionante. Ele permite comparar regiões cerebrais em diferentes fases do desenvolvimento com precisão milimétrica — algo essencial para pesquisadores que estudam transtornos como autismo, esquizofrenia e TDAH.

Segundo Kleven, a ferramenta funciona como uma máquina do tempo científica. Pesquisadores podem posicionar dados coletados em uma determinada idade e compará-los com informações de outros períodos, identificando quando alterações específicas surgem ao longo do desenvolvimento.

Esse tipo de análise é particularmente importante para condições que se manifestam na adolescência. Ao entender o momento exato em que determinadas mudanças ocorrem, a ciência pode avançar na identificação de mecanismos biológicos envolvidos no surgimento de transtornos neurológicos.

Ciência aberta e colaboração internacional

O desenvolvimento do DeMBA também é um exemplo de ciência colaborativa. O atlas foi construído a partir da reutilização de grandes volumes de imagens abertas produzidas por outros grupos de pesquisa.

Para Kleven, o compartilhamento de dados é essencial na ciência contemporânea. O reaproveitamento de informações reduz custos, economiza tempo e acelera descobertas.

O projeto foi liderado pelos professores Jan G. Bjaalie e Trygve Leergaard na Universidade de Oslo, com participação do pesquisador Harry Carey. A iniciativa conta com o suporte da infraestrutura europeia EBRAINS, plataforma que facilita o acesso a dados e ferramentas digitais para cientistas do mundo todo.

O trabalho integra os esforços do Human Brain Project, iniciativa europeia que mobilizou bilhões de coroas norueguesas para impulsionar pesquisas sobre o cérebro e desenvolver tecnologias colaborativas.

Um novo capítulo na neurociência

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© FreePik

O DeMBA já está disponível para a comunidade científica global por meio da plataforma EBRAINS. Ao combinar dados abertos com ferramentas interativas avançadas, o atlas representa uma nova etapa na forma como a neurociência investiga o desenvolvimento cerebral.

Mais do que um mapa detalhado, o projeto oferece um novo modo de pensar o cérebro: como um sistema dinâmico, em constante transformação. E, ao tornar visível essa jornada desde os primeiros dias de vida, a ciência se aproxima de responder algumas das perguntas mais complexas sobre a mente humana.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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