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Ciência

Cientistas descobrem 4 subtipos de autismo: entenda as diferenças

Um estudo inédito publicado na Nature Genetics identificou quatro subtipos de autismo, cada um com padrões próprios de comportamento, desenvolvimento e genética. A descoberta pode ajudar a personalizar diagnósticos, orientar famílias e até abrir caminho para novas terapias. Veja como os pesquisadores chegaram a essa conclusão e o que muda na prática clínica.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O transtorno do espectro autista (TEA) é complexo e diverso, o que torna cada diagnóstico único. Agora, cientistas deram um passo importante ao identificar quatro subtipos distintos de autismo, com diferenças biológicas e comportamentais claras. A pesquisa, que analisou milhares de crianças com apoio de inteligência artificial, promete mudar a forma como profissionais de saúde, famílias e pesquisadores compreendem a condição. Mas o que define cada subtipo e por que isso é tão relevante?

Como o estudo foi conduzido

Cientistas descobrem 4 subtipos de autismo: entenda as diferenças
© Pexels

O trabalho reuniu dados de 5.392 crianças com autismo, dentro do projeto SPARK, um dos maiores estudos do mundo sobre o tema. Pesquisadores da Universidade de Princeton e da Fundação Simons usaram inteligência artificial para cruzar mais de 230 características: interações sociais, marcos de desenvolvimento, comportamentos repetitivos e condições psiquiátricas.

Com essas informações, chegaram a quatro grandes grupos. Em seguida, analisaram o DNA dos participantes e encontraram conexões entre padrões de mutações genéticas e cada subtipo.

Os quatro subtipos de autismo

Os cientistas identificaram que, além do comportamento, o momento em que as mutações genéticas acontecem também influencia na severidade do quadro. Eis os subtipos:

  1. Desafios sociais e comportamentais

Maior grupo (37% dos casos). Pessoas que enfrentam dificuldades em interações sociais e apresentam comportamentos repetitivos, mas atingem marcos como andar e falar no mesmo ritmo de crianças sem autismo. Costumam ter diagnósticos adicionais, como TDAH, ansiedade, depressão ou TOC.

  1. TEA misto com atraso no desenvolvimento

Representa 19% dos participantes. Aqui, o desenvolvimento é mais lento, mas sem forte associação a ansiedade ou depressão. Esse grupo tem maior probabilidade de carregar variações genéticas raras herdadas dos pais.

  1. Desafios moderados

Segundo maior grupo (34%). Envolvem sinais de autismo menos intensos, com desenvolvimento próximo ao padrão típico e sem condições psiquiátricas associadas.

  1. Amplamente afetado

Cerca de 10% da amostra. Pessoas com atrasos mais severos, dificuldades de comunicação, desafios sociais, comportamentos repetitivos e ainda condições como ansiedade e desregulação do humor. Nesse grupo, a maioria das mutações não é herdada, mas ocorre de forma espontânea.

Por que a genética é tão importante

A ciência já sabia que o autismo tem forte influência genética — estima-se que 90% dos casos tenham origem hereditária. Em 80% deles, as alterações vêm dos pais. O estudo reforça isso, mas mostra que a combinação de genes alterados pode ser mais determinante que a ação isolada de um único gene.

Fatores ambientais, como infecções na gravidez, exposição a drogas, álcool ou medicamentos como o valproato (usado para epilepsia), também têm peso, mas menor. Esses elementos podem aumentar a chance de autismo quando associados à predisposição genética.

Impacto para famílias e profissionais

Segundo a psicóloga Thalita Possmoser, diretora clínica da Genial Care, os subtipos ajudam a entender por que algumas crianças precisam de mais suporte que outras. “Quanto mais conseguimos definir as dificuldades, mais individualizamos o plano de intervenção”, explica.

O neurologista infantil Hélio Van Der Linden, da Academia Brasileira de Neurologia, ressalta que o achado também pode alinhar expectativas entre famílias e especialistas. Se exames apontarem alterações genéticas ligadas a quadros mais severos, é possível ajustar planos de tratamento e evitar frustrações com resultados mais lentos.

Caminho para novas terapias

O estudo ainda abre portas para o desenvolvimento de tratamentos genéticos. Um exemplo é a síndrome de Rett, forma severa de autismo mais comum em meninas e causada por mutação no gene MECP2. Já existem pesquisas que tentam fornecer cópias “saudáveis” desse gene como forma de compensação.

Além disso, entender os subtipos pode permitir diagnósticos precoces. Testes genéticos em irmãos de crianças autistas, ou em grupos de risco como prematuros extremos, ajudariam a prever a trajetória do desenvolvimento e iniciar intervenções mais cedo.

Limites e próximos passos

Apesar do avanço, os pesquisadores alertam que exames genéticos explicam apenas cerca de 20% dos casos de autismo. Ou seja, ainda há muito a ser descoberto. Outro desafio é o custo: testes completos são caros e inacessíveis para a maioria das famílias, inclusive no Brasil.

Mesmo assim, os subtipos oferecem um novo mapa para compreender o espectro. E esse mapa pode ser fundamental para guiar pesquisas, políticas públicas e apoio personalizado.

O autismo é diverso, e agora a ciência conseguiu organizar parte dessa diversidade em quatro subtipos claros. Mais do que um rótulo, essa descoberta é um convite para repensar diagnósticos, intervenções e expectativas. Entender como a genética molda o TEA pode transformar o futuro de milhares de famílias em todo o mundo.

[Fonte: UOL]

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