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Ciência

Os cientistas criaram um quebra-cabeça quase impossível para abelhões — e o que aconteceu depois está mudando a forma como entendemos inteligência e cultura nos insetos

Pesquisadores descobriram que abelhões conseguem aprender tarefas complexas observando outros indivíduos e transmitir esse conhecimento socialmente. O estudo desafia antigas ideias sobre comportamento “puramente instintivo” em insetos e sugere que esses polinizadores podem se adaptar ao mundo muito mais rápido do que imaginávamos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante muito tempo, insetos sociais foram vistos como pequenas máquinas biológicas movidas apenas por instinto. Abelhas coletavam pólen, formigas seguiam trilhas químicas e tudo parecia rigidamente programado pela evolução.

Mas um novo experimento com abelhões acaba de abalar essa visão de forma surpreendente.

Pesquisadores demonstraram que esses insetos são capazes de resolver quebra-cabeças complexos observando outros indivíduos — e, mais importante, transmitir esse aprendizado socialmente. O resultado levou cientistas a discutir algo que até pouco tempo parecia reservado a mamíferos e aves: cultura em invertebrados.

O estudo sugere que os abelhões talvez sejam os primeiros invertebrados conhecidos capazes de adquirir e propagar conhecimento entre gerações sociais.

O quebra-cabeça que os insetos não conseguiam resolver sozinhos

Abelhas
© Boris Smokrovic – Unsplash

O experimento usou uma pequena caixa impressa em 3D contendo uma recompensa: uma gota de solução açucarada.

Para acessar o prêmio, o abelhão precisava executar uma sequência específica de ações. Primeiro, empurrar uma aba azul que bloqueava o mecanismo. Depois, mover uma aba vermelha para girar uma tampa transparente.

Era uma tarefa propositalmente complicada.

Os pesquisadores queriam descobrir se os insetos conseguiriam resolver o problema apenas por tentativa e erro.

A resposta foi praticamente não.

Colônias inteiras tiveram acesso às caixas durante horas, ao longo de vários dias e até semanas. Mesmo após até 24 dias de exposição, nenhum grupo sem “professores” conseguiu completar corretamente a sequência.

A mudança aconteceu quando eles começaram a observar outros

Para criar indivíduos demonstradores, os cientistas precisaram treinar alguns abelhões manualmente.

O detalhe curioso é que o primeiro movimento da sequência não gerava recompensa imediata. Isso desmotivava os insetos durante o treinamento, obrigando os pesquisadores a usar uma recompensa temporária que depois foi removida.

Mesmo assim, algo impressionante aconteceu.

Quando abelhões inexperientes puderam observar indivíduos treinados realizando a tarefa, parte deles aprendeu a sequência completa — mesmo sem receber nenhuma recompensa intermediária.

Nos testes em pares, cinco dos quinze observadores conseguiram resolver o quebra-cabeça apenas assistindo aos colegas.

Segundo a pesquisadora Alice Bridges, tratava-se de uma tarefa “extremamente difícil para as abelhas”.

Ela resumiu o resultado de forma direta: sem uma abelha treinada demonstrando a solução, nenhuma conseguiu abrir a caixa.

O que os cientistas chamam de “cultura”

Na ciência, cultura não significa arte, literatura ou museus.

O termo é usado para descrever comportamentos aprendidos socialmente e compartilhados dentro de um grupo ao longo do tempo.

É algo já observado em primatas, golfinhos, elefantes, aves e alguns outros animais. Chimpanzés, por exemplo, ensinam técnicas específicas de uso de ferramentas. Certas baleias transmitem padrões de canto entre grupos.

Agora, os abelhões entraram nessa conversa.

Os autores do estudo são cautelosos e evitam afirmar que a espécie Bombus terrestris possui cultura consolidada na natureza. Mas o trabalho mostra que esses insetos têm capacidade para aprendizado social complexo — algo considerado improvável até recentemente.

Isso pode mudar a sobrevivência dos polinizadores

Se As Abelhas Desaparecerem (2)
© Anete Lusina

A descoberta vai além da curiosidade científica.

Polinizadores sustentam uma parte gigantesca da produção mundial de alimentos. A FAO estima que cerca de 35% da produção agrícola global depende diretamente da polinização.

Já o painel científico IPBES calculou que o valor econômico desse serviço ecológico chega a centenas de bilhões de dólares por ano.

Só que esses insetos enfrentam uma crise global causada por perda de habitat, pesticidas, urbanização e mudanças climáticas.

Nesse cenário, a capacidade de aprender observando outros indivíduos pode representar uma vantagem importante.

Aprender mais rápido do que a evolução genética

A evolução tradicional funciona lentamente, ao longo de muitas gerações.

O aprendizado social, por outro lado, permite adaptação quase imediata.

Se flores mudam de época, novas plantas aparecem em ambientes urbanos ou ondas de calor alteram os ciclos naturais, insetos capazes de copiar soluções úteis podem reagir muito mais rapidamente do que espécies dependentes apenas de mudanças genéticas.

Os pesquisadores acreditam que isso pode abrir novas formas de entender como insetos sociais sobrevivem em ambientes cada vez mais instáveis.

O que isso muda no jardim da sua casa

Apesar da complexidade do estudo, as recomendações práticas continuam relativamente simples.

Mais flores disponíveis ao longo do ano, menos pesticidas e pequenos espaços de abrigo podem fazer enorme diferença para abelhas e abelhões.

Plantar espécies variadas, evitar produtos químicos desnecessários e deixar partes do jardim menos “perfeitas” ajuda a criar microambientes favoráveis para os polinizadores.

Porque, no fim das contas, talvez esses pequenos insetos sejam muito mais inteligentes — e muito mais importantes — do que imaginávamos.

 

[ Fonte: Ecoticias ]

 

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