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Ciência

Cientistas descobrem mecanismo do leite materno que pode transformar as fórmulas infantis

Uma descoberta sobre o funcionamento do intestino dos bebês revela uma interação surpreendente entre nutrientes e bactérias. O avanço pode ajudar a desenvolver novas estratégias de alimentação infantil.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O leite materno contém muito mais do que os nutrientes necessários para alimentar um recém-nascido. Em sua composição existem substâncias que o organismo do bebê não consegue digerir diretamente, mas que desempenham um papel importante no desenvolvimento intestinal. Durante anos, cientistas tentaram compreender como determinadas bactérias conseguem aproveitar esses componentes. Agora, uma pesquisa internacional identificou um mecanismo molecular que ajuda a explicar essa relação e pode orientar futuras melhorias nas fórmulas infantis.

O leite materno alimenta também as bactérias que vivem no intestino do bebê

Pesquisadores da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, e da Universidade de Zaragoza, na Espanha, identificaram uma enzima que permite a determinadas bactérias intestinais acessar açúcares presentes no leite humano.

O estudo foi publicado em 2 de novembro de 2026 na revista científica Nature Communications.

A descoberta envolve microrganismos do gênero Bifidobacterium, frequentemente encontrados na microbiota intestinal de bebês.

Essas bactérias conseguem utilizar diferentes carboidratos do leite materno como fonte de nutrientes, favorecendo sua presença no intestino durante os primeiros meses de vida.

Entretanto, nem todos esses açúcares estão disponíveis de maneira imediata.

Alguns permanecem ligados quimicamente a proteínas e precisam ser separados antes de serem aproveitados.

É justamente nesse processo que os pesquisadores identificaram uma ferramenta molecular especialmente importante.

A descoberta ajuda a compreender por que determinadas bactérias estão tão bem adaptadas ao ambiente intestinal dos recém-nascidos alimentados com leite humano.

Uma enzima funciona como uma chave para liberar nutrientes escondidos

A protagonista da pesquisa é uma enzima chamada PNGaseA, produzida pela bactéria Bifidobacterium bifidum.

Sua função é liberar determinados açúcares que permanecem conectados a pequenos fragmentos de proteínas, conhecidos como glicopeptídeos.

Esses açúcares pertencem a uma categoria chamada N-glicanos.

O detalhe mais interessante é que a enzima não atua igualmente sobre qualquer proteína.

Os experimentos demonstraram que ela apresenta preferência por estruturas proteicas que já foram fragmentadas.

Para entender esse comportamento, os cientistas utilizaram cristalografia de raios X, técnica que permite investigar a organização tridimensional de moléculas.

A análise revelou uma estrutura peculiar, com uma cavidade semelhante à letra C.

Essa região reconhece simultaneamente o açúcar e parte do fragmento proteico ao qual ele está ligado.

A estrutura consegue se ajustar parcialmente ao substrato, favorecendo a separação dos componentes.

Segundo os pesquisadores, foi a primeira vez que uma estrutura desse tipo foi observada com um glicopeptídeo ligado.

O resultado explica como determinadas bactérias conseguem acessar nutrientes que inicialmente estão presos a outras moléculas.

Bifidobacterium
© Cassie R. Bakshani e colaboradores – Nature Communications (2026)

A descoberta pode ajudar a compreender a formação da microbiota infantil

Nos primeiros meses de vida, o intestino dos bebês passa por transformações importantes.

Uma comunidade de microrganismos começa a se estabelecer, influenciada pela alimentação, pelo ambiente e pelo contato com diferentes bactérias.

O leite materno participa desse processo ao fornecer substâncias que podem favorecer o crescimento de determinados microrganismos.

A Universidade de Birmingham destaca que alguns desses componentes apresentam uma complexidade que ainda não é reproduzida de maneira equivalente nas fórmulas infantis convencionais.

Lucy Crouch, pesquisadora responsável pelo estudo, considera que compreender essas interações pode ajudar no desenvolvimento de ingredientes prebióticos mais específicos.

Esses ingredientes poderiam ser projetados para favorecer o crescimento de bactérias intestinais consideradas benéficas.

Ramón Hurtado-Guerrero, da Universidade de Zaragoza, também destacou a importância de conhecer a estrutura da enzima para investigar outras proteínas envolvidas no processamento de açúcares.

Isso significa que as fórmulas infantis poderão imitar melhor o leite materno?

A descoberta representa um avanço no conhecimento sobre a relação entre alimentação e microbiota, mas ainda não constitui uma aplicação clínica.

Os pesquisadores não demonstraram que adicionar PNGaseA a fórmulas infantis melhore a saúde dos bebês.

Também não realizaram ensaios clínicos comparando produtos comerciais.

O estudo se concentra em compreender um mecanismo bioquímico específico.

Ainda assim, os resultados se somam a outras pesquisas sobre as interações entre microrganismos intestinais.

Em abril de 2026, cientistas de Birmingham também investigaram relações de cooperação entre bactérias Bifidobacterium e determinadas cepas de Escherichia coli em bebês alimentados com leite materno.

Esses trabalhos mostram que o desenvolvimento da microbiota depende de processos mais complexos do que a simples presença de nutrientes.

No futuro, esse conhecimento poderá orientar o desenvolvimento de fórmulas e ingredientes mais próximos de algumas funções biológicas do leite materno, embora ainda sejam necessárias muitas pesquisas para transformar essa possibilidade em realidade.

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