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Ciência

Cientistas descobrem por que o Ártico está aquecendo mais rápido nas grandes profundidades — e o Mar da Groenlândia é o principal culpado

Um estudo publicado na Science Advances identificou um processo inesperado que acelera o aquecimento do Oceano Ártico em profundidades entre 2.000 e 2.600 metros. A água profunda do Mar da Groenlândia, antes um reservatório de água fria, agora atua como fonte de calor, transferindo energia para a Cuenca Euroasiática e alterando o equilíbrio térmico da região.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Por décadas, oceanógrafos acreditaram que as camadas mais profundas e geladas do Ártico estavam relativamente protegidas do impacto direto do aquecimento global. Mas novas evidências mostram o contrário. Pesquisadores internacionais identificaram que a água profunda do Mar da Groenlândia aqueceu tanto que passou a enviar calor para o interior do Ártico, produzindo um aumento de temperatura muito maior que o esperado. O achado altera o entendimento sobre o funcionamento do oceano polar em plena crise climática.

O aquecimento acelerado no coração do Ártico profundo

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© Unsplash – Mathieu Ramus.

A análise combinou observações oceânicas e modelos numéricos, revelando um aumento de 0,020 °C por década nas águas da Cuenca Euroasiática entre 2.000 e 2.600 metros de profundidade. Essa taxa dobra — e em alguns trechos quadruplica — o aquecimento registrado em outras áreas profundas do Ártico.

Segundo os cientistas, esse comportamento só é possível se houver um fluxo persistente de água mais quente vinda do Mar da Groenlândia, que tradicionalmente funcionava como um sumidouro de água fria para o Ártico.

O Mar da Groenlândia deixou de resfriar — e agora aquece o Ártico

A pesquisa destaca que o Mar da Groenlândia sofreu um aquecimento profundo inédito nas últimas décadas. Entre os anos 1980 e 2010, suas águas entre 2.000 e 3.000 metros de profundidade aqueceram até 0,131 °C por década, acumulando um aumento total de cerca de 0,37 °C desde os anos 1970.

Esse salto rompeu o ciclo histórico em que o Mar da Groenlândia enviava água fria para a Cuenca Euroasiática. Desde 2018, ambas as regiões passaram a registrar temperaturas muito semelhantes, um sinal claro de que o efeito de resfriamento desapareceu.

Agora, a água que atravessa o oceano profundo não esfria o Ártico — ela o aquece.

A barreira invisível da Dorsal de Lomonosov

Um dos achados mais importantes do estudo envolve a Dorsal de Lomonosov, uma cadeia montanhosa submarina que separa as cuencas Euroasiática e Amerasiática. Essa formação funciona como uma barreira natural que impede que a maior parte da água quente se desloque para o lado americano.

Os dados confirmam esse bloqueio físico:

  • Cuenca Euroasiática: aquecimento de até 0,020 °C por década

  • Cuenca Amerasiática: apenas 0,003 °C por década

Com isso, a região americana permanece relativamente protegida, enquanto o setor euroasiático sofre um aquecimento muito mais rápido.

O caminho da energia: como o calor chega ao Ártico profundo

A investigação também quantificou o volume de energia envolvido. A principal rota é o Estreito de Fram, ponto de conexão entre o Atlântico Norte, o Mar da Groenlândia e o Ártico.

Para aquecer a Cuenca Euroasiática entre 1.500 e 2.600 metros no período de 1990 a 2022, seriam necessários 0,454 zettajoules — e os modelos mostram que a quantidade de calor transportada para lá supera esse valor.

Ou seja: há energia suficiente fluindo para explicar plenamente o aquecimento acelerado observado.

Mudanças profundas no sistema oceânico ártico

Os autores alertam que o aquecimento do Mar da Groenlândia já está produzindo impactos mensuráveis em todo o Ártico profundo. A advecção horizontal de calor tornou-se o principal fator que impulsiona o aumento de temperatura na Cuenca Euroasiática.

O estudo também ressalta que:

  • abaixo dos 3.600 metros, o aquecimento ainda depende do fluxo geotérmico

  • entre as camadas intermediárias e superiores, a influência atlântica é dominante

  • a transferência de calor mostra que o Ártico está conectado de forma muito mais dinâmica ao Atlântico do que se supunha

Um alerta para o futuro do clima polar

Antártida
© NASA

Embora o estudo não faça previsões explícitas, ele indica que a entrada contínua de calor do Atlântico representa uma transformação estrutural no funcionamento básico do Oceano Ártico.

A partir de agora, monitorar o Mar da Groenlândia será essencial para entender:

  • a estabilidade da circulação oceânica profunda

  • o derretimento da água doce do Ártico

  • a sensibilidade das regiões polares às mudanças climáticas

  • as implicações para o gelo marinho e para o clima global

A pesquisa, liderada por Ruizhe Song e colaboradores, oferece um novo quadro científico para acompanhar um dos sistemas mais frágeis do planeta. E reforça uma mensagem clara: o Ártico profundo já está mudando — e muito mais rápido do que imaginávamos.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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