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Ciência

Cientistas investigaram como diferentes idiomas afetam o cérebro — e encontraram diferenças curiosas

Experimentos realizados em diferentes idiomas revelam que as palavras que usamos diariamente podem deixar marcas inesperadas na maneira como nosso cérebro interpreta determinadas experiências.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Duas pessoas podem olhar para a mesma cor, presenciar exatamente o mesmo acidente ou caminhar pelo mesmo lugar e, ainda assim, organizar essas experiências de maneiras ligeiramente diferentes. Uma das razões pode estar em algo que utilizamos todos os dias quase sem perceber: a língua que falamos. Décadas de pesquisas sugerem que o idioma não limita nossos pensamentos, mas pode direcionar nossa atenção de formas surpreendentes.

O idioma não controla o pensamento, mas pode treinar nossa atenção

Durante décadas, linguistas, psicólogos e cientistas cognitivos discutiram até que ponto a língua materna interfere na maneira como pensamos.

Uma das versões mais famosas dessa ideia ficou associada à hipótese de Sapir-Whorf. Em sua interpretação mais radical, cada idioma imporia aos falantes uma espécie de estrutura mental, determinando aquilo que seriam capazes de compreender.

Hoje, essa visão rígida perdeu espaço. Não ter uma palavra específica para alguma coisa não significa ser incapaz de compreender aquele conceito.

O que diversos experimentos indicam é algo mais sutil: o idioma pode acostumar o cérebro a prestar atenção em determinados detalhes da realidade.

Um exemplo impressionante aparece na orientação espacial.

Em português, usamos normalmente referências como esquerda, direita, frente e atrás. Já os falantes de Kuuk Thaayorre, língua aborígine australiana, recorrem principalmente a coordenadas absolutas, equivalentes a norte, sul, leste e oeste.

Isso exige que a pessoa mantenha constantemente uma noção de onde está orientada. Estudos realizados com essas comunidades mostraram uma capacidade de localização extremamente precisa, inclusive em circunstâncias nas quais muitos ocidentais teriam dificuldades.

Algo semelhante pode acontecer com nossa representação do tempo. Pessoas acostumadas a escrever da esquerda para a direita tendem a organizar sequências temporais nessa direção. Em sistemas de escrita que avançam da direita para a esquerda, o padrão pode aparecer invertido.

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© Magnific

Até aquilo que enxergamos pode ser classificado de maneira diferente

Os efeitos também aparecem quando entramos no território das cores.

O russo, por exemplo, utiliza palavras distintas para categorias de azul claro e azul escuro: goluboy e siniy. Essa separação faz parte do uso cotidiano do idioma.

Em experimentos comparando falantes de russo e inglês, participantes russos demonstraram maior rapidez para diferenciar certos tons quando eles atravessavam essa fronteira linguística.

Isso não significa que os falantes de inglês sejam incapazes de enxergar as mesmas diferenças. Seus olhos recebem a informação normalmente. A mudança aparece na rapidez com que o cérebro classifica determinadas tonalidades.

A memória também pode guardar marcas semelhantes.

Em inglês, uma construção como “John broke the vase” — “John quebrou o vaso” — é comum mesmo quando o acontecimento foi acidental. Em espanhol, assim como em português, é possível recorrer facilmente a construções menos centradas no responsável, como “o vaso quebrou”.

Experimentos envolvendo acidentes mostraram que falantes de inglês podiam recordar melhor quem havia causado involuntariamente determinados acontecimentos.

A explicação proposta não é que uma língua produza uma memória melhor que outra. A estrutura utilizada para descrever o episódio pode simplesmente direcionar a atenção para elementos diferentes da mesma cena.

Há efeitos curiosos, mas a ciência também pede cautela

Outra área investigada é o gênero gramatical. Idiomas como português, espanhol e alemão classificam objetos inanimados como masculinos ou femininos, e o gênero de um mesmo objeto pode mudar entre as línguas.

Alguns estudos encontraram diferenças nos adjetivos escolhidos pelos participantes para descrever esses objetos, sugerindo que a gramática poderia influenciar certas associações mentais.

Mas essa é uma área em que a cautela é importante. Nem todos os resultados foram reproduzidos com facilidade, e fatores como contexto, cultura e desenho experimental podem alterar as conclusões.

Por isso, a interpretação atual está longe da ideia de que o idioma aprisiona o pensamento.

Uma metáfora mais adequada seria a de um filtro.

Falar uma língua durante anos pode treinar o cérebro a observar automaticamente certas características: quem realizou uma ação, para onde estamos orientados, como organizamos uma sequência ou onde estabelecemos fronteiras entre categorias.

Isso também ajuda a explicar por que aprender outro idioma pode envolver muito mais do que memorizar vocabulário e regras gramaticais.

Ao entrar profundamente em outra língua, também entramos em contato com maneiras diferentes de organizar e descrever experiências. Não significa ganhar uma mente completamente nova, mas talvez adquirir novas rotas para observar exatamente o mesmo mundo.

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