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Ciência

Seu jeito de ser pode começar no DNA

Cientistas analisaram o DNA de mais de 1 milhão de pessoas procurando pistas sobre nossa personalidade. Encontraram centenas delas, mas nenhuma consegue decidir sozinha quem seremos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Por que algumas pessoas conversam com qualquer desconhecido enquanto outras preferem observar de longe? Por que há quem organize tudo com antecedência e quem viva tranquilamente no improviso? Uma gigantesca investigação genética tentou descobrir quanto dessas diferenças pode estar escondido no DNA. Os pesquisadores encontraram 1.260 variantes relacionadas à personalidade, mas o resultado está muito longe de significar que nosso comportamento já vem programado desde o nascimento.

Mais de 1 milhão de pessoas ajudaram a procurar pistas no DNA

Seu jeito de ser pode começar no DNA
© Pexels

O estudo reuniu informações de 46 grupos de participantes e chegou a analisar dados de até 1,14 milhão de pessoas.

Os pesquisadores procuraram pequenas diferenças genéticas relacionadas aos chamados Big Five, um dos modelos de personalidade mais utilizados na psicologia.

São cinco grandes dimensões: extroversão, amabilidade, responsabilidade, neuroticismo e abertura à experiência.

O resultado ampliou consideravelmente o mapa genético conhecido da personalidade.

Foram identificadas 1.260 variantes genéticas associadas aos diferentes traços, sendo 824 associações novas.

Em algumas características, o salto foi enorme.

No caso da extroversão, por exemplo, o número de regiões geneticamente significativas passou de 14 em pesquisas anteriores para 258. Para responsabilidade, aumentou de apenas três para 131. No neuroticismo, chegou a 706.

Mas esses números escondem um detalhe essencial.

Isso não significa que existam centenas de “genes da ansiedade”, “genes da organização” ou “genes da sociabilidade”.

Cada variante exerce apenas uma influência muito pequena.

Não existe um botão genético que transforme alguém em tímido

Seu jeito de ser pode começar no DNA
© Pexels

Talvez essa seja justamente a conclusão mais interessante.

Nossa personalidade parece funcionar como um gigantesco quebra-cabeça biológico no qual milhares de pequenas peças contribuem discretamente para o resultado.

Não existe um interruptor no DNA determinando que alguém será extrovertido, curioso, responsável ou preocupado.

As variantes genéticas comuns analisadas no estudo explicaram aproximadamente 4,8% a 9,3% das diferenças observadas nos cinco grandes traços.

Pesquisas anteriores realizadas com famílias e gêmeos costumam encontrar estimativas de herdabilidade consideravelmente maiores, frequentemente próximas de 40% ou mais. Os números não são diretamente equivalentes porque os métodos capturam componentes diferentes da influência genética.

O ponto central permanece o mesmo: existe uma participação dos genes, mas ela não determina completamente nossa personalidade.

Uma pessoa pode nascer com determinadas predisposições e terminar desenvolvendo características muito diferentes dependendo da vida que leva.

Tudo o que acontece depois do nascimento também entra nessa equação

Família, escola, amizades, cultura, relacionamentos e experiências acumuladas ao longo dos anos interagem continuamente com nossas predisposições biológicas.

Por isso, duas pessoas geneticamente parecidas podem desenvolver personalidades diferentes.

Até irmãos criados na mesma casa passam por experiências distintas, constroem relações próprias e interpretam acontecimentos de maneiras diferentes.

Isso também significa que estamos muito longe de conseguir analisar o DNA de um bebê e prever como será sua personalidade aos 30 anos.

O estudo não encontrou evidências suficientes para reduzir grandes traços de personalidade a um neurotransmissor específico ou a um pequeno conjunto de células cerebrais.

Serotonina ou dopamina, por exemplo, não oferecem uma explicação simples para aquilo que somos.

A personalidade parece surgir de uma combinação muito mais ampla entre genética, cérebro, ambiente e experiências.

O estudo encontrou ainda uma conexão importante com a saúde

Os pesquisadores também investigaram como as variantes relacionadas à personalidade aparecem associadas a outras características.

Foram encontradas conexões genéticas com aspectos ligados à saúde física e mental, comportamentos e diferentes resultados sociais.

Isso pode ajudar cientistas a compreender melhor associações já observadas entre determinados traços de personalidade e fatores como bem-estar, tabagismo, relações sociais ou algumas doenças.

Mas existe uma advertência importante.

Compartilhar parte da mesma arquitetura genética não significa que uma característica necessariamente provoque outra.

Uma variante relacionada estatisticamente a determinado comportamento também não condena alguém a desenvolvê-lo.

Genética trabalha principalmente com probabilidades e predisposições, não destinos individuais.

O DNA pode escrever o começo da história, mas não o final

Talvez seja justamente o tamanho do estudo que mostre como nossa personalidade é complicada.

Foi necessário reunir informações de mais de um milhão de pessoas para identificar centenas de sinais genéticos, muitos deles com efeitos minúsculos.

Se existisse um único gene capaz de determinar quem é tímido, organizado ou aventureiro, provavelmente seria muito mais fácil encontrá-lo.

O que surgiu foi praticamente o contrário.

Existe uma enorme rede de influências biológicas que começa antes do nascimento e continua interagindo com tudo aquilo que experimentamos depois.

Os genes podem inclinar discretamente a balança.

Mas entre o DNA recebido no nascimento e a pessoa que aparece décadas depois existe algo impossível de colocar completamente dentro de uma sequência genética: uma vida inteira acontecendo no meio.

[Fonte: UNQ]

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