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Ciência

Cientistas perfuram apenas 10 metros de gelo em um glaciar dos Alpes e encontram um arquivo atmosférico de 2.000 anos — com pistas do Império Romano, mineração medieval e erupções vulcânicas

No alto dos Alpes orientais, um pequeno glaciar guardou durante séculos partículas da atmosfera europeia. Metais de antigas minas, fumaça de incêndios florestais e sinais de erupções vulcânicas ficaram presos no gelo. Agora, esse raro registro climático corre o risco de desaparecer com o avanço do aquecimento global.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Um grupo internacional de cientistas encontrou algo extraordinário no topo do Weißseespitze, uma montanha localizada na fronteira entre Áustria e Itália. Ali, a cerca de 3.500 metros de altitude, um glaciar Aeuropeia comprimido em apenas dez metros de gelo.

Durante séculos, cada camada de neve que caiu sobre a montanha capturou partículas presentes na atmosfera — poeira, metais, cinzas e fumaça. Com o passar do tempo, essas camadas se compactaram e formaram gelo, preservando uma sequência cronológica que hoje funciona como um verdadeiro livro climático. O problema é que esse livro está começando a desaparecer.

Um estudo recente publicado na revista científica Frontiers in Earth Science analisou um núcleo de gelo retirado desse glaciar e conseguiu reconstruir quase dois mil anos da história ambiental da Europa, desde o período do Império Romano até a Idade Moderna.

Um arquivo climático comprimido em apenas dez metros de gelo

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© Unsplash – Mathieu Ramus.

Os chamados núcleos de gelo funcionam como cápsulas do tempo naturais. A cada inverno, a neve que se deposita sobre um glaciar captura pequenas partículas suspensas no ar. Entre elas estão poeira do deserto, cinzas vulcânicas, poluentes metálicos e resíduos de fumaça.

Ao longo dos anos, essas camadas de neve se compactam, transformando-se em gelo e preservando a composição química da atmosfera daquele momento.

No caso do glaciar Weißseespitze, os pesquisadores perfuraram o gelo até atingir o leito rochoso e retiraram um cilindro com cerca de dez metros de comprimento. Apesar de parecer pouco, esse pequeno fragmento concentra séculos de registros ambientais.

As camadas mais superficiais do núcleo foram formadas entre os séculos XVI e XVII. Já as partes mais profundas remontam à época do Império Romano, aproximadamente entre 349 a.C. e 420 d.C.

Para estabelecer essa cronologia, os cientistas combinaram diferentes métodos de datação, incluindo análise do isótopo radioativo argônio-39 e radiocarbono. Isso permitiu construir uma linha do tempo relativamente precisa e relacionar as mudanças químicas do gelo com eventos históricos e climáticos conhecidos.

Metais da mineração medieval preservados no gelo

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© X – @vistaalmar

Um dos resultados mais reveladores do estudo foi a identificação de picos de concentração de metais como chumbo, cobre, prata e arsênio em determinados períodos históricos.

Esses elementos não aparecem de forma constante ao longo das camadas de gelo. Em vez disso, surgem em aumentos claros em momentos específicos.

Segundo os pesquisadores, esses picos coincidem com períodos de intensa atividade mineradora na Europa durante a Idade Média.

Entre os séculos X e XIV, diversas regiões da Europa central e dos Alpes viveram uma expansão significativa da mineração, especialmente de prata e cobre. Durante o processo de fundição dos minérios, partículas metálicas eram liberadas na atmosfera e podiam viajar centenas ou até milhares de quilômetros antes de se depositar sobre a neve.

O gelo do Weißseespitze preserva exatamente essas marcas. As altas concentrações de arsênio detectadas no núcleo coincidem com períodos de exploração mineral em regiões históricas como o Tirol, os Alpes italianos e as montanhas Harz, na Alemanha.

Na prática, o glaciar registrou indiretamente o crescimento econômico e tecnológico da Europa medieval.

Incêndios florestais e mudanças climáticas no período medieval

Nem todos os sinais encontrados no gelo, porém, têm origem humana.

Os cientistas também identificaram uma forte presença de levoglucosano, um composto químico produzido quando a madeira queima. Esse marcador indica episódios de incêndios florestais.

O núcleo de gelo mostra um aumento significativo desse composto por volta do século XII. O dado coincide com registros de microcarvão encontrados em turfeiras da região alpina, sugerindo que incêndios eram relativamente frequentes naquele período.

Os pesquisadores acreditam que esses eventos estejam ligados ao chamado Período Quente Medieval, uma fase de clima relativamente mais quente que ocorreu aproximadamente entre os séculos X e XIII.

Durante esse intervalo, algumas regiões da Europa passaram por episódios de seca que favoreceram a acumulação de vegetação seca — combustível ideal para incêndios.

Além disso, a expansão agrícola e pecuária em áreas de montanha levou ao uso do fogo para abrir novos pastos e campos de cultivo, aumentando a quantidade de fumaça na atmosfera.

Erupções vulcânicas registradas nos Alpes

O núcleo de gelo também preserva sinais de grandes erupções vulcânicas.

Em determinadas camadas, os cientistas encontraram picos simultâneos de sulfatos e metais — uma assinatura típica de aerossóis vulcânicos transportados pela atmosfera.

Algumas dessas camadas parecem coincidir com erupções registradas em outros arquivos climáticos do hemisfério norte durante o século XIII.

Isso demonstra que até mesmo um pequeno glaciar alpino pode registrar fenômenos naturais ocorridos a milhares de quilômetros de distância. De certa forma, o gelo funciona como uma estação meteorológica natural que coleta dados há séculos.

Uma biblioteca climática ameaçada pelo aquecimento global

O grande problema é que essa biblioteca natural pode desaparecer antes de ser totalmente estudada.

Entre 2019 e 2024, os pesquisadores voltaram várias vezes ao glaciar para monitorar sua evolução. As medições mostram que a espessura do gelo diminuiu rapidamente em poucos anos.

Segundo a equipe científica, vários metros de gelo já se perderam desde as primeiras medições. Isso significa que camadas inteiras desse arquivo climático podem ter desaparecido.

Os glaciares alpinos estão entre os mais sensíveis ao aquecimento global. Modelos climáticos indicam que uma parte significativa dos glaciares dos Alpes orientais pode desaparecer nas próximas décadas se as temperaturas continuarem subindo.

E quando um glaciar derrete, não se perde apenas gelo. Perde-se também a informação que ele guardava.

Por isso, muitos cientistas defendem que seja urgente extrair e preservar núcleos de gelo desses glaciares antes que desapareçam. Esses registros permitem entender como era a atmosfera da Terra antes da industrialização — e ajudam a dimensionar o impacto real das atividades humanas no clima atual.

 

[ Fonte: Muy Interesante ]

 

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