Vigilância constante em habitações subsidiadas
No dia 24 de janeiro de 2024, o policial Gerald Glesmer passou mais de sete horas monitorando a movimentação na Leach Avenue, em Toledo. Ele não precisou estacionar sua viatura perto dos apartamentos de tijolos marrons do complexo de habitação pública Weiler Homes. Quatro câmeras de vigilância enviavam transmissões ao vivo diretamente para a central da polícia.
Glesmer monitorou a comunidade das 16h50 até pouco depois da meia-noite. Após uma breve pausa, voltou a acessar as câmeras até que a policial Valerie Lewis assumisse o turno às 4h, mantendo o monitoramento até as 10h45. Durante esse período, não houve relatos de crimes na Leach Avenue ou no complexo Weiler Homes, segundo dados da polícia.
Esse tipo de vigilância tornou-se comum em Toledo, onde morar em habitações subsidiadas significa ser observado 24 horas por dia por policiais invisíveis, graças ao contrato da cidade com a Fusus. A empresa fornece tecnologia que permite à polícia acessar transmissões ao vivo de redes de câmeras privadas que optam por participar do sistema.
Entre 1º de janeiro e 8 de outubro de 2024, a polícia de Toledo gastou 3.822 horas—equivalente a 159 dias—assistindo transmissões ao vivo de 23 câmeras habilitadas com o Fusus no Weiler Homes. Uma situação semelhante ocorreu em outros complexos de habitação subsidiada pela cidade: policiais passaram 18.751 horas monitorando transmissões de 275 câmeras em 12 conjuntos habitacionais da Lucas Metropolitan Housing Authority (LMHA) e de vários proprietários privados. Isso é o dobro do tempo gasto monitorando as outras 439 câmeras espalhadas por Toledo.
Desigualdade na vigilância
Beryl Lipton, pesquisadora da Electronic Frontier Foundation, destacou os riscos dessa vigilância desproporcional. “A ideia de que pessoas que já estão em uma situação vulnerável são submetidas a níveis aumentados de vigilância simplesmente por causa de onde vivem evidencia como essas práticas podem ser injustas e desiguais.”
Mais de 80% dos moradores de habitação pública e beneficiários de vouchers de moradia em Toledo não são brancos, segundo dados do Department of Housing and Urban Development.
A polícia de Toledo não respondeu diretamente às perguntas sobre por que os policiais acessaram tantas vezes as transmissões ao vivo de habitações subsidiadas. O oficial de informações públicas, Prince Flores, afirmou que “as transmissões podem ser abertas no centro de crimes para facilitar o uso e limitar problemas técnicos, mesmo que não estejam sendo monitoradas ativamente.”
Moradores se sentem expostos
Alguns moradores disseram que querem se sentir protegidos, mas saber que estão sendo monitorados constantemente não é reconfortante. “Eu me sinto seguro, mas ao mesmo tempo não me sinto,” disse Jihad Henley, que é negro e mora nos Greenbelt Place Apartments. “Pela cor da minha pele, posso ser confundido com outra pessoa.”
Elijah Fitch, morador do Weiler Homes, disse que mesmo após o início do uso do Fusus, a resposta da polícia a crimes na comunidade continuou lenta. “Eles demoram o tempo que quiserem para chegar aqui.”
Dados não justificam vigilância intensa
A vigilância desproporcional não é explicada por dados sobre criminalidade. Apenas 20% dos crimes da cidade ocorreram a menos de 800 metros de um dos 12 complexos habitacionais analisados, mas 66% das vezes que a polícia acessou transmissões do Fusus, as câmeras estavam nesses locais.
Esse aumento na atenção policial pode ameaçar a liberdade e o acesso à moradia de inquilinos de baixa renda. Pesquisadores argumentam que a “hipervigilância” de comunidades subsidiadas ajuda a criar um “caminho da habitação pública para a prisão.” Relatos mostram que autoridades habitacionais e proprietários privados usam imagens de violações menores para despejar inquilinos, mesmo sem condenações.
Kristie Ortiz, advogada da Advocates for Basic Legal Equality, afirmou: “É surpreendente ver que o foco está apenas nas autoridades de habitação e moradias acessíveis. Isso é claramente uma forma de discriminação.”
Expansão cara e falta de transparência
A Fusus foi adquirida em 2024 pela gigante da tecnologia policial Axon por US$ 241 milhões. Além de acessar câmeras privadas, o sistema permite integrar leitores automáticos de placas, drones e algoritmos de reconhecimento de objetos, facilitando o rastreamento de pessoas sem a necessidade de mandados.
Durante o anúncio do sistema, autoridades locais afirmaram que as transmissões só seriam acessadas em emergências. No entanto, dados de auditoria mostram que policiais frequentemente acessam câmeras por longos períodos sem relatos de crimes.
No McClinton Nunn Homes, por exemplo, apenas dois crimes foram registrados em setembro de 2024, mas a polícia assistiu a 150 horas de transmissões das câmeras do playground. “Você pode assistir o quanto quiser, mas precisa fazer alguma coisa,” disse Tommy Wade, morador do complexo.
A expansão do Fusus em Toledo ocorreu discretamente. O contrato de três anos, no valor de US$ 375 mil, foi aprovado sem questionamentos durante reuniões públicas. Além disso, a polícia gastou US$ 559 mil em fundos de alívio da covid-19 para comprar 60 novas câmeras, além das centenas já instaladas em habitações subsidiadas.
Falta de regulamentação e proteção legal
A política oficial sobre o uso do Fusus pela polícia de Toledo é considerada inadequada. Gary Daniels, da ACLU de Ohio, afirmou que a política deveria detalhar o que os policiais podem ou não fazer com as câmeras, definir prazos para armazenamento de imagens e estabelecer quem pode acessar as gravações.
Em outros estados, sistemas semelhantes foram compartilhados entre departamentos de polícia, permitindo vigilância cruzada entre cidades. Isso levanta preocupações sobre a possibilidade de agências federais, como o ICE, acessarem esses sistemas.
Daniels conclui: “Continuamos vendo esse tipo de tecnologia sendo usada em comunidades minoritárias onde há pouco poder político. É o velho oeste, porque não há regulamentação que governe o uso ou o abuso dessas tecnologias.”