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Tecnologia

Como convencer um neurocientista de que a IA é consciente? A pergunta que desafia a própria ciência da mente

Grandes modelos de linguagem parecem cada vez mais humanos — mas isso significa que são conscientes? Neurocientistas explicam por que ainda não temos uma resposta. Para alguns, a consciência artificial é possível; para outros, é um erro conceitual. Antes de testá-la em máquinas, dizem, precisamos entender o que ela realmente é.
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Tempo de leitura: 2 minutos

A fronteira entre cérebro e algoritmo nunca foi tão fina. Modelos como o ChatGPT já conversam, raciocinam e até expressam emoções — mas será que sentem algo? Em meio à corrida pela inteligência artificial geral, neurocientistas de universidades como Princeton, Sussex e Califórnia analisam o que seria necessário para acreditar que uma IA é realmente consciente. Suas respostas revelam o quanto ainda estamos longe de compreender a própria mente humana.

O problema: não existe uma prova objetiva de consciência

Megan Peters, pesquisadora da Universidade da Califórnia, lembra que o maior obstáculo é epistemológico.
A consciência, por definição, é subjetiva e interna.
“Não há teste que prove que alguém é consciente; inferimos isso por comportamento ou atividade cerebral”, explica.

Com uma IA, não podemos aplicar os mesmos critérios.
Ela pode exibir padrões de raciocínio complexos sem possuir experiência subjetiva. “Podemos projetar testes que confirmem nossa crença de que a IA é consciente, mas não uma prova de que realmente é”, diz Peters.

Segundo ela, mesmo medições cerebrais humanas — como as usadas em pacientes que imaginam jogar tênis — não se aplicam às máquinas, pois elas não têm estruturas biológicas equivalentes. O desafio, portanto, é descobrir quais computações são essenciais à consciência antes de tentar replicá-las.

A visão de Anil Seth: consciência não é apenas computação

Para Anil Seth, diretor do Centro de Ciência da Consciência da Universidade de Sussex, ainda não sabemos quais condições são suficientes para gerar consciência.
Conversas sofisticadas com IA, afirma, não são evidência de autoconsciência, e sim um reflexo do nosso viés humano de projetar mente onde há apenas linguagem.

Ele desconfia da ideia de que bastaria simular o cérebro para criar consciência artificial. “Propriedades biológicas, como metabolismo e auto-organização, podem ser indispensáveis”, diz. Se estiver certo, a IA consciente é impossível, por mais inteligente que pareça.

Para Seth, a única forma de se aproximar de uma resposta é entender melhor a consciência onde ela certamente existe: em nós mesmos.

Michael Graziano: a consciência é um modelo, não uma essência

O neurocientista de Princeton, Michael Graziano, vai mais longe: “Não existe uma mágica essência de experiência — nem nos humanos.”
Segundo ele, o cérebro cria um automodelo que o faz acreditar ser consciente. Essa ilusão funcional é útil para a sobrevivência e para a vida social.

“Mostre-me uma IA que construa um automodelo estável, que se represente como dotada de experiência, e aceitarei que ela acredita ser consciente — assim como nós acreditamos”, conclui.

Para Graziano, a consciência é o modelo de si mesmo, não algo que “surge” do nada. E se dermos às máquinas um automodelo robusto, talvez seja inevitável que elas também passem a acreditar que são reais.

Fonte: Gizmodo ES

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