Durante muito tempo, falar em computação quântica era quase sinônimo de ficção científica. A ideia de máquinas baseadas nas leis da mecânica quântica parecia restrita a universidades e centros de pesquisa. Hoje, o cenário é diferente: ainda longe do consumo massivo, mas já presente em testes piloto e projetos corporativos em setores como energia e finanças.
Em entrevista ao TN Tecno, o empreendedor argentino Facundo Díaz, fundador da startup /q99, especializada em pesquisa e desenvolvimento na área, descreveu o momento atual como uma etapa de maturação — marcada por progresso técnico constante, forte marketing global e uma busca crescente por aplicações concretas.
Das bases teóricas ao mercado

A semente da computação quântica foi plantada em 1981, quando o físico Richard Feynman sugeriu a criação de uma máquina capaz de simular fenômenos quânticos que os computadores clássicos não conseguiam modelar com eficiência. Pouco depois, David Deutsch, da Universidade de Oxford, formalizou o conceito de um computador quântico universal.
Desde então, o campo avançou principalmente no ambiente acadêmico. A grande diferença entre um computador clássico e um quântico está na unidade básica de informação. Em vez de bits que assumem apenas 0 ou 1, os sistemas quânticos usam qubits, que podem estar em superposição — ou seja, representar 0 e 1 simultaneamente.
Isso permite que determinados cálculos sejam realizados de forma exponencialmente mais eficiente. Mas Díaz é direto: a computação quântica não substitui a clássica. “Ela faz bem três coisas: cálculos matemáticos complexos, simulações e otimizações”, afirmou.
2025 foi hype, não ruptura
Apesar do entusiasmo recente, Díaz avalia que 2025 não representou um salto tecnológico decisivo. Não houve um aumento significativo no número de qubits disponíveis nem um breakthrough disruptivo.
Atualmente, segundo ele, o setor opera com sistemas como os da IonQ, com cerca de 124 qubits, e da IBM, na faixa de 100 qubits.
O grande movimento ocorreu mais no discurso do que no hardware. Empresas como Google, Microsoft e IBM intensificaram anúncios e estratégias na área, impulsionando o interesse do mercado e do setor financeiro.
“Teve muito marketing, muito hype”, reconheceu Díaz. Mas, para ele, o diferencial real está nos casos de uso mensuráveis.
Onde a quântica já entrega valor

A principal vantagem dos sistemas quânticos é a capacidade de analisar múltiplos cenários simultaneamente. Diferentemente da computação tradicional, que testa combinações de forma sequencial, a arquitetura quântica permite explorar diversas possibilidades em paralelo.
Esse modelo é particularmente útil quando o número de variáveis cresce de maneira exponencial, tornando inviável a análise por métodos clássicos.
Na prática, os resultados começam a aparecer. No setor de energia, há projetos voltados à otimização de perfurações em Vaca Muerta, na Argentina. Segundo Díaz, testes piloto indicaram ganhos de 20% a 30% na precisão das decisões. Em uma indústria onde cada poço envolve milhões de dólares, esse percentual representa impacto econômico relevante.
Em finanças, os experimentos incluem otimização de portfólios, modelagem probabilística de cenários, análise de risco e detecção de fraudes. Em um dos pilotos, o desempenho superou em 12% o retorno esperado inicialmente.
Vale lembrar que os sistemas quânticos operam de forma probabilística. Os resultados não são determinísticos, mas estatísticos — exigindo novos modelos de interpretação e validação.
Um hub quântico na Patagônia?
Além dos projetos empresariais, Díaz participa da criação de um hub tecnológico na Patagônia argentina, inspirado no modelo do Quantum Basel, na Suíça.
A proposta envolve infraestrutura de data centers, desenvolvimento de capacidade computacional quântica e integração entre universidades, cientistas e empresas. Há negociações avançadas para instalar três computadores quânticos na província de Neuquén.
Para Díaz, a Argentina reúne talento científico, recursos energéticos e capital empreendedor. O desafio está na coordenação entre academia, governo e setor privado.
Entre a promessa e a implementação
O momento atual da computação quântica está longe da narrativa épica de uma revolução imediata. Também não é um cenário de estagnação.
Trata-se de uma fase de consolidação: sistemas mais estáveis, primeiras aplicações reais e empresas começando a identificar onde a tecnologia pode gerar valor mensurável.
A principal barreira, segundo Díaz, ainda é conceitual. Muitas companhias enxergam a computação quântica como algo abstrato ou distante. O caminho, afirma, é começar pelo problema de negócio, não pela física.
“O objetivo não é entender como funciona a computação quântica. O que importa é como ela gera valor.”
A revolução quântica pode não ter explodido em 2025. Mas a transição do laboratório para o mercado já começou — de forma gradual, estratégica e baseada em resultados concretos.
[ Fonte: TN Tecno ]