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Tecnologia

Europa acelera para não virar coadjuvante na revolução quântica

Enquanto a inteligência artificial domina o debate público, a tecnologia quântica avança de forma silenciosa — e estratégica. A Europa tenta ganhar velocidade para competir com Estados Unidos e China, apostando em ciência de ponta, mas ainda esbarra em falta de investimento privado, fragmentação de esforços e dificuldades para transformar pesquisa em mercado.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A próxima grande transformação tecnológica já está em curso. Menos visível que o boom da IA, a revolução quântica promete impactar áreas como saúde, indústria, energia e cibersegurança, com aplicações que vão do desenvolvimento acelerado de medicamentos a comunicações ultrasseguras. Para a Europa, dominar esse ecossistema é também uma questão de autonomia estratégica: decidir seu futuro tecnológico sem depender de potências externas.

Um relatório recente da McKinsey & Company estima que os três pilares da tecnologia quântica — computação, comunicação e sensores — podem gerar até US$ 97 bilhões em receitas globais até 2035, chegando a quase US$ 200 bilhões em 2040. A Comissão Europeia projeta que o setor crie milhares de empregos altamente qualificados e ultrapasse € 155 bilhões em valor de mercado na próxima década.

Um plano ambicioso, mas com obstáculos conhecidos

Física Quântica1
© Google Quantum AI

Em resposta a essa corrida, Bruxelas apresentou sua Estratégia Quântica com metas até 2030, que deverá ser acompanhada por uma futura Lei Quântica para impulsionar pesquisa, inovação e resiliência industrial. A intenção é clara: transformar excelência científica em liderança econômica.

Na prática, porém, o caminho é mais complexo. Irene López de Vallejo, do laboratório quântico da Tecnalia, resume o desafio de forma direta: a Europa sabe investigar, mas tem dificuldade para industrializar. O salto do protótipo ao produto — o famoso “vale da morte” da inovação — é ainda mais profundo em tecnologias quânticas, que exigem ciclos longos, infraestrutura complexa e alto risco técnico.

Ela aponta quatro gargalos principais: pouco capital privado nas fases avançadas, fragmentação de programas públicos, fragilidade da cadeia de suprimentos e falta de perfis híbridos que combinem física, engenharia e experiência industrial. Em um campo que envolve criogenia, microfabricação, eletrônica de controle, software e cibersegurança, basta uma peça falhar para todo o sistema emperrar.

Dinheiro público não basta sem escala privada

David Sanz, da KPMG na Espanha, concorda que o continente tem liderança científica sólida, mas enfrenta barreiras estruturais para converter esse conhecimento em produtos comercializáveis. Apesar de mais de € 11 bilhões em investimento público recente em pesquisa e desenvolvimento, a Europa atrai apenas cerca de 5% do financiamento quântico privado global. Os Estados Unidos concentram mais da metade.

Essa lacuna é especialmente crítica nas etapas finais de crescimento, quando startups precisam de capital pesado para escalar fábricas, contratar talentos e conquistar mercados. O risco, alertam especialistas, é que empresas europeias promissoras acabem sendo compradas por investidores estrangeiros antes de amadurecer.

Patentes, empresas globais e a pressão externa

Outro sinal de alerta está nas patentes, indicador-chave de maturidade comercial. Segundo representantes do setor, a União Europeia fica atrás de Estados Unidos e China, com poucas exceções como a espanhola Multiverse Computing, referência regional em quantum AI.

Do outro lado do Atlântico, gigantes como IBM, Google, Microsoft e Alphabet formam uma engrenagem público-privada poderosa, apoiada por polos de startups na Califórnia e em Boston. Já a China aposta em planejamento de longo prazo e investimento estatal maciço, liderando áreas como comunicações quânticas via satélite.

Na Europa, o ecossistema é mais pulverizado, com empresas emergentes espalhadas por vários países. Há talento e criatividade, mas falta massa crítica e coordenação para competir em escala continental.

O que pode virar o jogo

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© Bartlomiej Wroblewski – Getty Images

Apesar das dificuldades, o continente não parte do zero. Centros públicos de supercomputação e data centers começam a integrar tecnologias quânticas, abrindo espaço para soluções híbridas em larga escala. Empresas como a espanhola Qilimanjaro Quantum Tech apostam nessa combinação de ciência de ponta, infraestrutura pública e foco em soberania tecnológica como vantagem competitiva.

O desafio agora é garantir continuidade de investimento privado e reduzir a fragmentação do mercado europeu. Em deep tech, onde os retornos levam anos para aparecer, visão de longo prazo é tão importante quanto capital.

Se conseguir alinhar ciência, indústria e financiamento, a Europa tem chance real de disputar protagonismo. Caso contrário, corre o risco de repetir um roteiro conhecido: liderar artigos acadêmicos, mas importar as tecnologias que moldarão seu futuro.

 

[ Fonte: ABC ]

 

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